08 de julho de 2026
Articulistas

O boné vermelho


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O boné vermelho na cabeça do presidente gerou aplausos apenas nos círculos do MST. Provocou protestos veementes de dezenas de associações de produtores rurais. Reforçou até mesmo o ressurgimento da UDR. João Sampaio, da Sociedade Rural Brasileira, foi rigoroso em suas críticas: “Já está mais do que provada a inviabilidade econômica dos assentamentos. Alem disso, cada família assentada custa R$40 mil. Vale perguntar ao ministro Palocci se o país esta disposto a investir R$40 bilhões num modelo rural ultrapassado.”

Na área política, a oposição deitou e rolou. O presidente do PFL, Jorge Bornhausen e o líder do PFL na Câmara, José Carlos Aleluia (BA), manifestaram seus protestos veementes nos meios de comunicação. O líder do PSDB na Câmara, Jutahy Junior (BA), sentenciou apocalíptico: “É o início de um processo de radicalização. Quando o presidente usa boné do MST passa a idéia de que está estimulando o confronto.” Renan Calheiros (AL), do PMDB no Senado, falou apreensivo: “É a primeira grande crise do governo”. Muita bronca por quase nada.

O dinamismo da agricultura nacional e inconteste no Brasil do novo século. Agüenta as pontas da economia. A economia agrícola está bem gerenciada no governo Lula da Silva. Foi colocada, com juízo, nas mãos do competente e sabido Roberto Rodrigues. Uma nova safra agrícola recorde é esperada para este ano. O governo apresentou propostas bem coerentes de apoio a produção agrícola, com a promessa de liberação de R$32 bilhões para financiamento da produção. Reservou um bom dinheiro para apoio das pequenas propriedades familiares. Ação impecável. Roberto Rodrigues está fazendo tudo que é possível.

De repente, surge a barretada ao MST. O governo passa a enfrentar, inutilmente, protestos em profusão por todo país. Zé Dirceu retruca, afirmando ser a reforma agrária prioridade de governo, mas dentro da ordem legal. O ministro da Justiça, Thomas Bastos, mobiliza a Polícia Federal, para apoiar a ação dos Estados e por ordem nas invasões ilegais que ameaçam a ordem jurídica. Um coordenador da bancada do PT, Paulo Bernardo (PR), ponderou com sabedoria: “Temos um conflito agudizado, uma crise pontual. O MST tem que saber que ninguém vai pôr o presidente contra a parede”.

A diversidade e o dinamismo da economia agrícola brasileira não permitem mais utilizar concepções passadiças e ineptas teoricamente para análise da questão agrária no Brasil. O líder Pedro Stédile reprisa vozes do passado: “Enquanto houver sem-terra e latifúndios a luta continua”. A dinâmica da acumulação na agricultura diversificou socialmente a produção, até mesmo nas regiões pouco dinâmicas do nordeste. Apesar do peso da agricultura na produção nacional ser pequeno, é estratégia correta o apoio à modernização da agricultura. Modernizar implica na incorporação de novas tecnologias, de processos modernos de produção e dinamização dos circuitos de distribuição e comercialização da safra agrícola.

O MST tem um peso político desproporcional à sua importância no cenário da economia nacional. Arregimenta trabalhadores de toda espécie, especialmente a massa de desempregados urbanos. Atua nas frestas dos desequilíbrios estruturais da economia brasileira. Os assentamentos acabam tendo custos elevados, para não se transformarem em bolsões de subsistência.

O governo federal não terá os recursos necessários para atender a demanda da liderança do MST. Pedro Stédile guarda profundas e vãs esperanças: “Acho que o presidente se convenceu de que a reforma agrária será o principal programa para combater a fome e enfrentar o desemprego”.

Não acredito, como um dito na traseira de um caminhão, que “o PT é o socialismo que caiu na vida.” É muito barulho por nada... (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)