Apesar dos 60 anos, cinco filho e 11 netos que os separam, o porteiro Rodolpho Rodrigues, 69 anos, tem nos irmãos Hiago e Gabriela Oliveira Campos, 9 e 6 anos, respectivamente, os seus melhores amigos. As crianças, que moram num residencial na zona sul de Bauru, também garantem que o “seo” Rodolpho, que conheceram há cinco meses, é melhor amigo do que os amiguinhos da mesma idade.
“Na escola não tem nenhum amigo como ele. Ele é legal, ele brinca, conta história. Eu sou bonzinho, mas quando faço arte ele ajuda a minha mãe dar bronca”, assume Hiago, que segundo a mãe, Luciana, 28 anos, bastou levantar para ir fazer companhia ao amigo na portaria do prédio.
Ela conta que às vezes até na hora das refeições as crianças preferem fazer na companhia no amigo, na área de lazer do prédio, e até aprendem a comer os legumes que geralmente os pequenos não gostam. Mas o porteiro deixa escapar que Hiago gosta muito quando ele traz torresminho.
“Seo” Rodolfo conta que quando moço praticou karatê e ensinou alguns golpes para o amiguinho. “Mas tem dia que ele pensa que é gente grande e me bate. Mas já ficou craque no jogo de bola e no xadrez de letras, onde você coloca as letras do alfabeto e monta um tabuleiro com nomes de cores, flores, frutas, objetos e animais que começam com a letra escolhida. Só que se der muita atenção a ele, a Gabi já fala: ‘E eu??’”
Gabriela assume que tem ciúme do irmão e diz que adora o jogo das letras, também gosta quando o “seo” Rodolpho a deixa apertar o botão para abrir a trava eletrônica.
Eles só brigam quando o assunto é molhar as plantas. O porteiro precisa demarcar um território para cada um dos garotos, mas é claro que como bom moleque, Hiago vai sempre regar um pedaço maior do jardim para deixar a irmã caçula com um bico enorme.
“Às vezes, preciso gritar a mãe deles para ajudar apartar”, diverte-se Rodrigues, que confessa se sentir criança novamente na companhia dos novos amigos, que nos dias de frio e chuva disputam o banquinho na portaria, principalmente a almofada vermelha onde não cabem os três.
“Eu gosto muito deles e muitas vezes me sinto criança de novo, pena que não dou conta de acompanhar a energia deles.”
Gabriela e Hiago contam que quando vão viajar a primeira coisa que querem fazer é levar “seo” Rodolpho. Gostariam que ele pudesse ir à escola com eles e não deixam um bolo ou um lanche diferente sem o pedaço reservado do amigo.
“No dia da quadrilha eu tirei foto com ele”, conta a empolgada Gabi, que ficou triste por Rodolpho não poder comparecer na festa para vê-la dançar.
A única coisa que “seo” Rodolpho não admite é que os garotos cheguem para ele e digam: “Pô! Cara!”. “Eu tenho um neto que nem converso direito por causa dessas manias e já chamei a atenção do Hiago por isso, é muito feio. Eu não gosto de bobo, eu gosto de menino inteligente.”
Com um olhar malandro, Hiago dispara: “Pô, mano!”. E todos caem na gargalhada.
Um reino de amigo
Rogéria, Ana Amélia, Luciana, Alexandra, Cláudia, Ieda, a neta Natália, a filha Paula. A dona de casa Aurora Cabreira, 59 anos, cinco filhos (a mais velha tem 41 e o caçula 30), quatro netos, em matéria de amigos se considera uma pessoa privilegiada.
“A vida inteira foi assim, desde que os meninos eram crianças e adolescentes que os amigos deles se tornaram meus amigos. Se um deles não estava, eu ía no lugar. Eu sempre participei de tudo e hoje sou eu quem escolho a balada, reservo espaço para todo mundo, a minha casa sempre foi cheia de gente.”
A turma da Aurora tem em média 30 e poucos anos e é com essa moçada em que muitos ainda a chamam de “tia” com quem ela se diverte, dá conselhos e se abre.
“Se tenho um problema, é com elas que resolvo. Elas são sinceras e estão sempre de bom astral para resolver qualquer coisa e todos se apegam muito a mim”, declara, orgulhosa.
Esta semana, ela fez aniversário e dois de seus grandes amigos, o Fábio e o Vinícius, disseram que estavam em Bauru e iriam lhe dar um abraço. Na verdade, um estava em São Paulo, o outro em Campinas, mas agilizaram os compromissos profissionais para estar com a amiga na data querida.
Quem conhece Aurora sabe que ela é tratada como rainha e chamada de “Princesona”. Há três anos, ela foi para Porto Seguro com as amigas de Bauru e na Bahia foi “adotada” por formandos de 8ª série de um colégio paulistano. Numa das farras no saguão do hotel, estava o ex-vocalista do grupo “É o Tchan” Beto Jamaica, que gritou que queria tirar foto com a “Princesona”. O apelido pegou e a bauruense admite que poucas pessoas têm tantos amigos verdadeiros como ela.
Amigos para sempre
Para ser amigo de um, precisa gostar do outro e vice-versa. Esse é o pacto entre o estudante Leandro Lopes, 17 anos, e a prestadora de serviços Brasília Galvão, 53 anos: um é o melhor amigo do outro, são do mesmo signo (Touro), já fizeram até festa de aniversário juntos, mas com dois bolos para não dar briga, gostam das mesmas coisas, têm muitos amigos em comum, se falam várias vezes ao dia e não dão a mínima para as diferenças.
“A Brasília era amiga do meu pai, mora no mesmo bairro há anos, me conhece desde que eu nasci e desde meus 13, 14 anos a gente se tornou amigo de verdade. Hoje, ela é a minha melhor amiga. Ela pensa com o coração e está presente nos momentos tristes e nas horas de festa”, argumenta Leandro.
Para ele, a diferença de idade não é um obstáculo, e sim um elemento facilitador. “Ela tem experiência e me ajuda a entender um pouco mais a vida.”
“E a juventude dele eu acho que me dá força, alegria, disposição, me completa!”, acrescenta a Brasília.
Essa dupla está sempre marcando presença nos eventos sociais da cidade, seja num baile de Carnaval, no teatro ou numa seresta e revelam que nunca foram discriminados pela diferença.
Mas Leandro confessa que muita gente pensa que Brasília é sua mãe, outros acham que ela é sua namorada, mas a maioria já sabe da amizade que existe entre os dois e até se aproxima para fazer parte do grupo que sempre os acompanha.
“Eu tenho amigos da minha idade, mas tenho bem mais amigos mais velhos. Eu busco carinho e compreensão e geralmente as pessoas mais jovens são mais distantes. A Brasília não, ela está sempre por perto e eu sei que com ela eu posso contar.”
A amiga Brasília justifica no amadurecimento do amigo o seu gosto por estar com pessoas mais velhas. “Ele se dá bem com todo mundo, inclusive com a turma da idade dele, mas você jamais vai vê-lo andando de patins com a molecada.”
Leandro aponta que sempre foi assim, quando começou a freqüentar a escola preferia conversar com os professores e funcionários do colégio do que com as crianças. Ele não imagina como serão seus amigos quando tiver 30 anos, mas jura que não pretende abandonar a turma e diz que pode até cuidar dos amigos na velhice, principalmente da melhor amiga, que é solteira e não vai deixá-la num asilo.
Eles assumem que brigam de vez em quando, principalmente por opiniões divergentes, mas Leandro ressalva que a amizade é um tipo de amor incondicional.
Brasília, por sua vez, garante que se no mundo as amizades fossem tão verdadeiras e desinteressadas quanto a deles e de outras pessoas que conhece, o mundo seria bem diferente.