08 de julho de 2026
Geral

Roberto Previdello morre aos 93 anos

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 4 min

Bauru perdeu no início da tarde de ontem, vítima de câncer, Roberto Previdello, superintendente do Consórcio Intermunicipal da Promoção Social (Cips), um bancário aposentado que dedicou a maior parte de seus 93 anos à assistência social e a filantropia. O enterro será hoje, às 10h, no Cemitério Municipal da Saudade.

Além do Cips, projeto social liderado e lançado pelo ex-prefeito e ex-deputado federal Alcides Franciscato, Previdello foi presidente e fundador da Sociedade Beneficente Cristã, diretor da Sociedade de Proteção à Maternidade e à Criança, fundador e diretor da Sociedade Espírita Beneficente Rural de Bauru, vice-presidente e tesoureiro da Associação Bauruense do Bem-Estar do Menor e fundador da União dos Hospitais Psiquiátricos do Estado de São Paulo.

Ele se aposentou como gerente do Banco do Brasil, mas foi o trabalho social a sua marca registrada. Ele dedicou 35 anos ao Cips

“O ‘seo’ Roberto Previdello nasceu para assistência social. Ele trabalhou muito não só em Bauru, mas também na região. Ou ele foi o fundador ou a pessoa que ajudou a tocar muitas entidades”, relata o ex-secretário municipal do Bem-Estar José Carlos Augusto Fernandes, que conheceu Previdello em 1968, quando foi trabalhar no Cips.

“Somente por dois anos não fui da diretoria do Cips, mas estava sempre por lá ajudando”, revela Fernandes, que hoje é segundo secretário da entidade e ainda coordena projetos na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e dirige o Lar-Escola Santa Luzia Para Cegos.

Ele revela que o superintendente trabalhou até a última semana, mas há alguns meses sua saúde vinha abalada. Previdello foi internado na última quinta-feira e Fernandes o visitou na sexta. “Não imaginava que ele partiria tão cedo, apesar da doença e da idade avançada. Ele não dava sinais.”

Ultimamente, era o filho João Carlos quem comandava as atividades no Cips.

Lutador

Voluntário em vários grupos filantrópicos de Bauru, o funcionário público Miguel Daré enfatiza o espírito de luta e amizade de Previdello.

“Ele era amicíssimo do ‘seo’ Sebastião Paiva, da Sociedade Beneficente Cristã, e juntos fizeram muito pelos carentes”.

Daré recorda-se que Previdello nunca faltava às reuniões e estava sempre presente nos bazares, eventos e campanhas, lutava muito para obter recursos e criar novas vagas, principalmente para os menores, e fazia questão de rezar um “Pai Nosso” ao início de cada conversa com os grupos de voluntários. “Era um Pai Nosso diferente, elaborado, que a gente aprendeu com o tempo.”

Mas a principal lembrança do voluntário era o apelo que o diretor fazia. “Tomem conta da obra, eu já passei dos 90 anos, cuidem dos menores, não os deixem nas ruas.”

Desprendimento

Roberto Previdello dizia que o segredo de sua longevidade devia-se à dedicação intensa à doutrina espírita. Foram quase 60 anos de trabalho espírita, na maior parte desse período, ele esteve à frente da União das Sociedades Espíritas (USE), sendo um dos fundadores da entidade que disciplina os centros em Bauru.

“Esse trabalho me garante saúde”, afirmou Previdello, numa entrevista ao Boletim da USE.

O diretor defendia que centro espírita não poderia ser uma igreja dogmática, em que uma única pessoa manda, exige. As casas, para ele, deveriam ser dirigidas por diretorias, as quais devem privilegiar o atendimento através de um pronto-socorro espiritual aberto a pessoas de quaisquer religiões. “Alguém que está perturbado espiritualmente e não conhece a doutrina deve ser recebido com amor. Ele também é filho de Deus e o amor deve estar acima dessas diferenças intelectuais”, dizia.

Previdello não nasceu espírita, era católico praticante, mas uma doença na família o fez mudar de religião.

“Nossa família era muito católica. Éramos da congregação Jesus, Maria e José, de Ribeirão Preto, até que um dia meu pai caiu doente. Nenhum médico sabia o que tinha, até que um dia um grupo de amigos perguntou se poderia iniciar um trabalho de passes com ele. Perguntei quanto era, eles disseram que não era nada. Durante três domingos eles aplicaram passes em meu pai, que começou a melhorar e ficou sadio com a ajuda da água fluída. Ele estava doente espiritualmente. Era médium e nenhum médico realmente poderia ter curado isso. Isso despertou a minha fé e comecei a acompanhar meu pai em seus trabalhos mediúnicos. Aprendi muito com ele e devo minha entrada no espiritismo a ele”, contava.

Em tantos anos trabalhando pela doutrina espírita, Previdello praticava o desprendimento às coisas materiais e a renúncia. Dizia sempre que sua responsabilidade era grande porque não “estava apenas de passagem, tinha um trabalho a cumprir”.