Por ser poeta e escritor, preocupava-se muito com a política e a situação dos povos. Por ser um idealista, teve a ilusão de que poderia ajudar a construir um “mundo melhor”. Assim sendo, nosso pobre protagonista filiou-se a um partido político.
Pedidos e conselhos para que não fizesse isso não lhe faltaram, mas como era um visionário, insistiu.
Como se diz na gíria partidária, vestiu a camisa, julgando que os princípios morais trazidos do berço, somados à relativa popularidade que tinha no meio cultural de sua cidade, haveriam de ser suficientes para sua inserção. Lá se foi, então, nosso amigo pela estrada das reuniões, assembléias, convenções, campanhas e demais acontecimentos inerentes à vida partidária.
Não podemos omitir que nas reuniões iniciais, soube ter a paciência necessária, quando notou que sua fala era perfeitamente dispensável, e que o mesmo se aplicava às suas idéias e ideais...
Não podemos omitir que, ainda no início, teve a sábia tolerância para com os correligionários que sorriam com sarcasmo, quando era chamado de poeta.
Não podemos esquecer de que nas suas primeiras falas, observou, atônito, as bocas que se entortavam em cada um daqueles que nele notaram a facilidade de comunicação e, por conseguinte, um “concorrente” à ascensão política.
O tempo passou e nosso personagem até progrediu no partido. Orgulhosamente, viu seu nome entre os delegados, e com mais orgulho ainda, cumpriu seu papel com maestria e responsabilidade, até deixando de lado outros compromissos, o lazer e a família para, como tal, empreender algumas viagens...
Chegaram as eleições... Ainda com idealismo, pegou um dos últimos formulários que lhe foi estendido para que fosse um dos muitos que se candidatariam para candidato a candidato...
Pensou, pensou, pensou e, depois de muito pensar, decidiu preencher...
Ah, meus caros leitores... como foi triste a sua tristeza! Como foi amarga a sua decepção!...
Sem patrocinador de campanha, sem a cara-de-pau para emprestar ou pedir dinheiro aos amigos para pagar a alta taxa exigida, sem possuir carro e até sem a palavra amiga daquele que julgava ser seu maior amigo, o nosso poeta, sem “recursos financeiros para candidato”, viu chegar a amarga constatação de que a boa reputação que gozava nos meios culturais, na política não tinha o menor valor.
Humilhado e (por que não?) discriminado, ainda não estava batido... Forte como um carvalho e cada vez mais consciente da miséria sócio-cultural de uma grande parte da humanidade e acreditando no Homem, ainda carregou por muitos dias, caixas e caixas de farto material de campanha, montando em sua modesta residência, uma espécie de comitê. Sua fidelidade partidária e seu amor pelo país eram tão fortes que houve até quem afirmava que ele havia “pirado”.
Encontrei-o, recentemente, num evento cultural. Disse-me que ainda estava no partido, mas por pouco tempo. Falou-me de seu filho desempregado, de seu sogro que estava doente gravemente, no corredor de um hospital por falta de quartos e, quando eu disse-lhe que iria escrever sua experiência na vida político-partidária, perguntei se me autorizava a mencionar seu nome...
Ele até ia responder-me, mas justamente naquele momento, um passarinho pousou suavemente em seu ombro. Vendo minha surpresa, o poeta apenas sorriu... sorriu e disse-me: Não... não mencione... Veja este pássaro! (sorriu), é a inspiração... pode ser de uma canção... ou de um poema....
E dizendo que estava à espera de um retorno de telefonema, foi se afastando com passos lentos, pelas ruas da vida, numa realidade que bem poucos são capazes de ver...
Confesso que pensei em política, pensei em poesia e Neruda veio-me à mente. Sim... havia uma relação. “Fazer poesia é olhar nos olhos do povo...” (Poeta e escritor Carlos Abreu Carvalho - RG 8.087.263)