Um bichinho, meu Deus - espantou-se a moça, Flávia Hilário Cassiano, 28 anos, assistente social de Malacacheta, no Vale do Mucuri, sertão mineiro, ao chegar na casa da família Chagas de Jesus. A expressão de susto repetia, involuntariamente, um velho poema de Manuel Bandeira, quando o mesmo ficou chocado, pasmo, boquiaberto, ao se deparar com o primeiro homem que viu a lamber sobras de alimentos de lata de lixo urbano, coisa de mais de 50 anos. O espanto da moça é recente, recentíssimo, 2003, século XXI. O motivo foi a situação de Leonardo, de quem não se sabe nem mesmo a idade correta -aparenta três, não tem sequer registro de nascimento. Nu, o menino ciscava entre gravetos, à procura de bagaços de cana já sugados por ele mesmo e seus irmãos pequenos, João, Adélia e Dario -todos igualmente na clandestinidade, léguas e léguas distante da cidadania. Na beira do fogão dos Chagas de Jesus, só cinzas. Borralho. As panelas vazias e amassadas contam a história da casa. Flávia socorre, com um pedaço de abóbora. Cortou, botou para cozinhar. Misturou na mesma água uma mão cheia de arroz. Fez um “rebengo”, como muitos sertanejos daquelas bandas chamam a comida feita das sobras das sobras. Os meninos voaram em cima da panela e se lambuzaram. Já passava de 11h. Não comiam há 23h. Os pais sairiam de madrugada para ganhar uma diária de R$ 5 no cafezal. No vale vizinho, o Jequitinhonha, o ronco da fome é o mesmo. Benvinda Severina traz no seu batismo-destino -assim mesmo sem sobrenome- a escrita da tragédia social. Teve 14 meninos. “Morreram só três”, diz, em Capelinha (MG). “Passar fome todo dia não passo não, senhor. Mas nunca acordei uma só vez na vida sem me preocupar com o que ia botar no fogo pros meninos”, relata. O drama à beira do fogão se repete na grande nação semi-árida brasileira e nos subúrbios das metrópoles. Como temos testemunhados nessa expedição que se propõe a revelar a nova “geografia da fome” no Brasil e exibir também as iniciativas -públicas e privadas- que o país começou a desenvolver para o combate à miséria. Em uma série de reportagens especiais, iremos mostrar novos personagens e dramas de uma antiga história -mais velha que cantiga de grilo, como se diz nos sertões- que ainda atinge hoje pelo menos 9,4 milhões de pessoas, segundo estimativa do Mesa (Ministério de Segurança Alimentar e Combate à Fome). Iniciativas como as que começaram a mudar a vida de Guaribas, no Piauí, cidade-piloto do programa Fome Zero. “Meu filho, o Brasil foi descoberto em 1.500 e Guaribas foi achada só agora, nesse ano, aqui era a porteira do fim do mundo”, diz Orlando Rocha, 62 anos, que celebra as mudanças, como água tratada, construção de casas, alfabetização para adultos etc. Fazer três refeições por dia já representa auto-estima elevada em Guaribas. (O autor, Xico Sá, é jornalista e participa do Projeto “Nova Geografia da Fome”, junto com o fotógrafo U.Dettmar)