Uma bicicleta, duas rodas sobressalentes, um volante de carro, peças de ferro velho, criatividade e muito capricho. Foi assim que um ex-operador de máquinas construiu seu “Sicromove” - um veículo movido a pedal mas com capacidade para transportar, de uma só vez, dois adultos, duas crianças e, quando necessário, a compra do mês no supermercado.
O inventor é Francisco de Paula, 57 anos, morador do Núcleo Habitacional Fortunato Rocha Lima. Ele conta que trabalhou vários anos operando máquinas numa fazenda no município de Jafa. Quando veio para Bauru, há cerca de seis anos, não conseguiu emprego e começou a consertar bicicletas para sustentar a família.
A idéia de adaptar uma bicicleta para transportar familiares surgiu há aproximadamente dois anos, segundo ele. Na primeira tentativa, ele usou latas e parafusos, mantendo a estrutura da bicicleta, com marcha e freios no guidão.
“Vendi aquela bicicleta para um amigo por R$ 200,00. Comprei uma máquina de solda e uma rebitadeira. Depois, sempre que sobrava um dinheirinho, fui comprando os arcos, os pneus, o quadro, a tinta, até conseguir montar esta aqui”, comemora.
O “Sicromove”, como é chamado por seu inventor, tem a estrutura de uma bicicleta do lado direito. Ligada a ela, uma estrutura de latas reformadas compõe um lugar para passageiros, uma caçamba e um bagageiro. Nas rodas, o veículo leva até amortecedores para amenizar os obstáculos do caminho.
O pequeno bagageiro fica na parte da frente do veículo, protegido por tampa e caprichosamente forrado por dentro. No lugar do passageiro, o banco estofado, com capa azul, uma porta semelhante às das antigas carruagens. Um tapete de carro forra o piso.
Na parte de trás, o veículo tem uma caçamba com 60 centímetros de largura e comprimento e 30 centímetros de profundidade, também toda forrada com tapetes de carro. Preso a ela numa das extremidades, um guarda-chuva devidamente instalado indica que o invento é mesmo “pau para toda a obra”.
Detalhista, Francisco deixou um compartimento especial para o rádio de pilha e outro para uma bateria de motocicleta. “O rádio eu tirei, porque é a pilha e não rodava fita. A bateria eu queria usar para ligar as luzes, mas também não deu muito certo. Tenho que achar uma outra alternativa”, conta.
Luzes, sim - o “Sicromove” tem faróis dianteiros e piscas traseiros - tudo acionado por pilhas comuns. Para ligar as luzes, o inventor instalou dois interruptores na lataria que reveste a bicicleta sob o celim.
Neste segundo veículo, Francisco substituiu o guidão por um volante de carro. As alavancas de marcha foram instaladas no “painel” e os freios foram substituídos por um único cabo ligado à roda traseira, com acionamento pelo pé, junto aos pedais.
“A gente não tinha dinheiro para comprar um carro. Ele fez esse para a gente poder ir à igreja, ao supermercado”, destaca a esposa, Zélia da Silva Paula, 51 anos.
Francisco levou cerca de dez meses para montar seu “Sicromove”. Indagado sobre o preço do veículo, ele não sabe responder. Diz que foi comprando as peças aos poucos.
“Não dá para ir para a cidade com ela, mas serve bem para a gente sair aqui por perto, ir com a família para a igreja e fazer uma comprinha quando tem dinheiro”, completa o inventor.