O ministro das Cidades, Olívio Dutra, apresentou no mês passado ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, a proposta de instalação de um chip nos automóveis para possibilitar sua identificação automática. A medida, cuja idéia não é nova, tem por objetivo reduzir o roubo e o furto de veículos e o uso de carros vítimas destas ações em atos criminosos.
O sistema pretende ainda, segundo Dutra, coibir a impunidade dos que descumprem o Código Brasileiro de Trânsito. “Temos uma cultura de impunidade que precisa ser interrompida”, disse. O ministro estima que, da frota de 30 milhões de veículos do País, pelo menos 10 milhões apresentam irregularidades.
A implantação do chip está em discussão também com as montadoras e revendedoras de veículos. Segundo o diretor do Departamento Nacional de Trânsito, Ailton Brasiliense, a idéia é que os carros já saiam das fábricas com o componente implantado. Ele disse que o chip deverá custar até R$ 20,00.
O AutoMercado&Cia contatou as principais montadoras do País - Fiat, General Motors, Volkswagen e Ford - para ouvi-las sobre o assunto. A General Motors e a Ford afirmaram que não comentam sobre projetos futuros. No entanto, a segunda ressaltou ser sempre favorável a iniciativas que favoreçam o consumidor e sua segurança, desde que isso não onere a aquisição do veículo.
Segundo a Ford, a empresa já oferece itens de segurança passiva de última geração que têm evitado furtos. A montadora cita como exemplo um item de série na linha de automóveis: o sistema Pats, um chip instalado no módulo da injeção eletrônica que só reconhece a chave original codificada para acionamento do veículo.
A Ford acrescenta que, na linha de picapes, a montadora disponibiliza um sistema rastreador por freqüência de rádio, ativo tanto nos casos de furto quanto de roubo, aos consumidores que adquirem um veículo zero quilômetro com seguro da marca. Já a Volkswagen e a Fiat, a exemplo da General Motors, também não se pronunciaram a respeito.
Custos x benefícios
Apesar de apoiarem a iniciativa governamental, integrantes de concessionárias bauruenses fazem ressalvas ao projeto. As principais delas referem-se à relação custo benefício. O empresário Milton Simão, um dos proprietários da Simão/Ford, destaca que a proposta é excepcional, mas irá aumentar o valor dos automóveis.
Simão justifica que o chip em si não é caro, mas sim o sistema que o mesmo exigirá para torná-lo eficiente na identificação de um veículo. “Apesar de constituir-se em tecnologia que garante sossego aos donos de automóveis, há a necessidade de se montar centrais de rastreamento e pessoal especializado em diversas regiões do País. Se o governo não bancar esses custos, o preço do carro subirá”, adverte ele.
Por essas razões, Simão condiciona seu apoio à proposta ao rateio dos custos necessários para sua implantação. “Sou favorável à medida, desde que as despesas sejam divididas entre governo e montadoras e não influenciem negativamente nas vendas”, frisa.
O gerente de vendas Aldo Deienno Júnior, da Meta/Fiat, também elogia a proposta federal. “Até para o comércio seria mais interessante, uma vez que a concessionária poderia acessar um sistema que, plugado no carro, forneceria informações sobre o a documentação do carro, como a situação do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) e licenciamento."
No entanto, Aldo entende que mais importante que a implantação ou não do chip é debater a renovação da frota nacional. “Discutir a colocação do componente é por a carroça à frente dos bois, pois há muitos carros velhos rodando. O chip deveria ser o passo seguinte à atualização dos automóveis brasileiros”, considera o gerente.
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Seguros poderiam baixar
Além de tentar contribuir para diminuir o número de furtos e roubos de automóveis no País, a instalação do chip certamente colaboraria para reduzir o custo da contratação dos seguros. A opinião é do corretor Édson Aparecido de Almeida, da Prata Seguradora.
Ele afirma que, apesar de não ser possível estimar em termos percentuais a queda, a menor incidência de crimes já contribuiria para reduzir o valor dos seguros. “Além disso, o índice de recuperação dos veículos seria muito maior e também ajudaria a diminui-los”, justifica Almeida.
O corretor acredita que o segmento não sofreria com um hipotético desaquecimento provocado pelo aumento da segurança com os chips nos carros. “O mercado de seguros não conta apenas com a possibilidade dos roubos, mas também com as colisões e incêndios. Quem pensar em resguardar-se apenas das ações dos meliantes e esquecer das demais coberturas e vantagens dos seguros poderá ter prejuízo”, alerta ele.
Para Almeida, o País poderia adotar, ainda, um projeto já em estudos nos Estados Unidos de instalar caixas-preta, semelhantes às utilizadas na aviação e que registram o comportamento das aeronaves, nos automóveis. “Creio ser esse um instrumento importante para avaliar os bons e maus motoristas”, considera o corretor.
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Projeto não é inédito
Não é a primeira vez que se fala em utilizar chips como forma de se combater furtos e roubos de automóveis. Em abril do ano passado, quando o Denatran ainda fazia parte do Ministério da Justiça, o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças) apresentou um projeto similar para ajudar na prevenção ao furto de cargas e veículos.
Além disso, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) também chegou a estudar, no mesmo período, a possibilidade de aprovar uma resolução obrigando as montadoras a instalarem microchips de identificação.
Na época, o projeto, que acabou não vingando, foi apresentado a representantes de montadoras, indústrias de autopeças, transportadoras e empresas de seguro.
A idéia era instalá-los no motor e câmbio, itens de maior valor que alimentam desmanches clandestinos.