09 de julho de 2026
Regional

Condição de pescadores gera preocupação de municípios

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 3 min

A precária condição de sobrevivência de pescadores que vivem às margens do rio Tietê, na área represada pela usina de Barra Bonita, tem despertado a preocupação de municípios.

Levantamento realizado recentemente pelas prefeituras de Botucatu e Dois Córregos desenhou um quadro sócio-econômico das famílias ribeirinhas que levam uma vida nômade e se deslocam ao longo do rio, sobrevivendo exclusivamente da pesca.

Em geral, segundo o levantamento, essas famílias se alojam com pouca infra-estrutura, em barracas de lona improvisadas e rústicas, e sem as mínimas condições de saneamento básico. Grande parte dos pescadores seria proveniente do Nordeste e da Capital. “Eles vivem numa situação de extrema pobreza, moram acampados como os sem-terra”, afirma o coordenador do trabalho em Botucatu, o assessor jurídico da prefeitura Arnaldo Sampaio

Essa população ribeirinha, segundo ele, abrange os municípios de Botucatu, Dois Córregos, Anhembi, Igaraçu do Tietê, Barra Bonita, Santa Maria da Serra e São Manuel. Somente em Botucatu, segundo Sampaio, são cerca de 100 famílias, distribuídas principalmente entre as áreas do Rio Bonito e Porto Said.

Com o objetivo de discutir as dificuldades enfrentadas por essas colônias, prefeitos da região se reuniram no último dia 25. A reunião, segundo a assessoria de imprensa da prefeitura de Botucatu, contou também com a presença de representantes de pescadores, comando da Polícia Militar, representante do Departamento de Proteção aos Recursos Naturais da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, além da empresa AES, responsável pela represa de Barra Bonita.

De acordo com Sampaio, durante o encontro, foi definido que todos os municípios, a exemplo de Botucatu e Dois Córregos, devem realizar o levantamento sócio-econômico das famílias, com o objetivo de traçar estratégias de ação.

O coordenador também afirma que a reunião definiu a necessidade de implantação de uma cooperativa entre os pescadores, visando a união do grupo e o desenvolvimento de políticas de conscientização em relação à pesca, como por exemplo a necessidade de limpeza dos peixes em condições sanitárias adequadas.

Outra preocupação do grupo, segundo Sampaio, é estudar locais às margens do rio onde essas famílias possam ser fixadas em melhores condições. “Nós queremos achar locais adequados para fixar esse pessoal, com infra-estrutura”, conta.

Atualmente, segundo ele, além do problema social, algumas famílias estão acampadas em área proibida, de preservação ambiental.

A próxima reunião dos municípios está marcada para dia 4 de setembro, quando as demais prefeituras devem apresentar os dados sócio-econômicos das colônias. “Nós estamos tentando resolver esse problema de forma conjunta, já que é um problema que envolve todos os municípios”, conclui Sampaio.

Ações

Em Dois Córregos, o levantamento, que abrangeu cerca de 40 famílias, já desencadeou algumas iniciativas por parte do poder público local.

Segundo Antônio Fernando Capelari, diretor da Assistência Social do município, equipes visitaram recentemente a comunidade com o objetivo de averiguar as condições de saúde dos moradores.

Na ocasião, as vacinas das crianças foram regularizadas e as famílias instruídas sobre medidas preventivas. “Além disso, nós fizemos exames de hipertensão, glicemia e pré-natal”, afirma Capelari.

Também durante a visita, segundo o diretor, as equipes constataram que a maioria das crianças não estudava, fato que levou a prefeitura a disponibilizar um veículo para encaminhá-las até a escola. “O problema é que muitas não permanecem nas aulas porque as famílias são nômades”, lamenta.

O levantamento realizado em Dois Córregos também apontou um grande consumo de fumo e álcool entre os pescadores da colônia, segundo o diretor.

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Dependência

Em relação ao comércio da pesca, de acordo com Sampaio, muitas famílias mantêm uma condição de dependência com os chamados “atravessadores” - comerciantes que disponibilizam equipamentos aos pescadores em troca da venda de peixes a preços baixos. “Eles dão o barco, o motor, a rede e depois vão descontando no peixe. Hoje, eles pagam apenas R$ 0,50 no quilo do peixe. E os pescadores são obrigados a vender limpos”, afirma.