08 de julho de 2026
Articulistas

As ilusões perdidas


| Tempo de leitura: 3 min

Quando o escritor inglês, nascido na Índia, George Orwell escreveu “A revolução dos bichos”, em 1945, segundo seus biógrafos estava acometido de profunda frustração com a performance da esquerda no poder. Ninguém mais do que ele lutara por melhores condições de vida para o operariado inglês e por uma sociedade mais equânime. Enfim, era um verdadeiro militante de esquerda, um intelectual de passeata que carregava no rosto cicatrizes como lembranças de confrontos com as tropas de choque.

Desgostoso com as lambanças e crueldades de Stalin na ex-União Soviética, escreveu outro livro até hoje lembrado, “1984”, onde o Big Brother é o grande ditador que coloca as razões de Estado acima de qualquer interesse de reles mamíferos vivíparos, como classificava os seres humanos. As pessoas são denominadas de acordo com a importância na máquina burocrática como alfa-mais, alfa-menos, beta e assim por diante.

A “Revolução dos bichos” é uma fábula onde o autor caricatura a ascensão da esquerda e a tomada do poder pelos explorados. Os bichos de uma fazenda organizam uma revolta, expulsam os humanos e assumem o governo, sob o lema: “Todos os bichos são iguais”.

Aos poucos vão aparecendo as dificuldades para manter tudo sob controle, e os porcos, que eram os líderes do movimento e que passaram a governar, vão adquirindo atitudes cada vez mais parecidas com as de seus antecessores humanos. Começam as perseguições aos dissidentes, as concessões de favores, as desigualdades. O lema já mudou um pouco: “Todos os bichos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.

Quando leio que o governo petista qualifica de “grande vitória” a taxação de 11% sobre os proventos de funcionários aposentados e viúvas pensionistas, façanha que a gestão passada não conseguiu graças à oposição ferrenha do próprio PT, sinto-me na pele de um Orwell tupiniquim. Um ingênuo que um dia disse, prenho de esperança, não ter medo de Regina Duarte.

Sinto uma dor no peito quando vejo o bicho-servidor-inativo, mais uma vez, sendo apontado como responsável pelos desmandos cometidos na Previdência Social e tratado de modo diferente do bicho-magistrado, como se tivesse que pagar as contas sozinho.

Quando penso nas distorções apresentadas à opinião nacional como verdades absolutas; quando leio nas manchetes que os servidores públicos se aposentam como marajás, com seus proventos integrais, fico revoltado com essa falácia unilateral. Ninguém diz que esse mesmo bicho-servidor sempre contribuiu para a Previdência sobre a integralidade de seus salários e não sobre um teto máximo. E esses servidores, em sua grande maioria, não têm aposentadorias milionárias, são apenas uns poucos que as detêm e, mesmo assim, por causa de excrescências legais.

Como no livro de Orwell, é preciso mostrar serviço, mesmo que seja necessário atropelar idéias e aliados. Superiores razões de Estado autorizam calar as vozes dissonantes e expulsar da fazenda os bichos que atrapalham o processo. A cena final é terrível: porcos e humanos estão jogando cartas e, em meio à fumaça dos cigarros, o autor constata, tristemente, que já não se consegue distinguir as feições umas das outras. Qualquer semelhança entre o real e a ficção não é mera coincidência. É pura sem-vergonhice.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.