09 de julho de 2026
Política

Movimento estudantil busca bandeira

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 6 min

Atuante em décadas passadas, o movimento estudantil secundarista de Bauru luta para renascer. A falta de uma bandeira comum que mobilize os 45 mil alunos dos ensinos fundamental e médio da cidade, porém, atrapalha a realização desse ideal. Somado a isso, há o completo desinteresse de uma grande fatia dos estudantes, que demonstram total indiferença em relação ao assunto.

No próximo dia 24, o 7.º Congresso da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Bauru (Umesb) vai eleger a nova diretoria da entidade. Até que ponto ela terá poder para mudar a atual situação, é uma incógnita.

O atual presidente da Umesb, Rafael Gomes, diz que lançou campanhas importantes de mobilização. “Um dos marcos foi o combate à proposta de redução da maioridade penal, em que conseguimos envolver o maior número de alunos. Outro foi a luta pelo exercício do voto aos 16 anos”, diz.

São temas, porém, cuja amplitude não os tranformam em uma bandeira que possa despertar um interesse maior para o movimento.

Para o presidente da juventude do PSDB, Mauro Sérgio dos Santos, que faz oposição a Gomes, é preciso mudar o quadro atual. “Você não vê a Umesb fazer um trabalho voltado para os estudantes. Eles confundem política partidária com política estudantil”, opina.

Para promover as alterações que julga necessárias, Santos apresenta, porém, propostas que priorizam a estrutura do movimento. “Estamos lançando o projeto Mude (Movimento pela União e Democracia Estudantil). A gente tenta democratizar as entidades estudantis e dar total independência e soberania para elas. Hoje, elas ficam monopolizadas sob um único grupo”, diz.

A representante da ala da juventude do PSTU, Beatriz de Campos, também critica os atuais comandantes da entidade. “O movimento estudantil, como qualquer outro, tem condições de crescer, desde que tenha uma diretoria firme. Quem está no poder não está fazendo nada. O que falta é alguém que vá impulsionar alguma coisa. Críticas e sugestões todo mundo tem. Só falta alguém que encoraje”, opina.

Já o presidente da ala da juventude do PMDB, Alexandre Bastos, reconhece que falta uma bandeira que desperte a atenção dos alunos para o movimento. “O que a gente propõe é a implantação do meio passe para os estudantes, por exemplo”, declara.

A disputa entre as correntes de vários partidos, aliás, parece ser outro empecilho para o crescimento do movimento estudantil. Rafael Gomes, que é ligado ao PC do B, discorda. “Isso não atrapalha. O fato de um grupo carregar uma sigla partidária não representa nenhum mal. É evidente que a gente não pode permitir que as entidades se transformem em um apêndice do movimento partidário”, diz.

Grêmios

Pela legislação, os alunos de cada escola possuem o direito de constituir um grêmio estudantil. Atualmente, são 28 em Bauru. Os representantes dessas instituições têm como função representar os alunos junto à direção da escola, por exemplo. Embora demonstrem grande vontade de exercer a função, a impressão que alguns passam é de que não estão preparados para exercer o cargo.

Um dos representantes de um grêmio estudantil, por exemplo, teve dificuldades para entender as perguntas feitas pela reportagem. Questionado sobre a ligação entre movimento estudantil e movimento partidário, outro integrante respondeu sobre a relação dos alunos com a direção da escola.

Os líderes estudantis são unânimes em apontar que a participação dos alunos no movimento ainda é muito fraca. “Eles deveriam procurar e exigir mais. Ninguém se oferece para falar nada. Acham tudo normal”, diz William Lima dos Santos, da escola Joaquim Rodrigues Madureira.

“Os estudantes não levam a sério. Vamos tentar conscientizá-los de que o grêmio não é uma brincadeira. Já organizamos uma festa junina e agora estou preparando o torneio interclasses”, afirma Wesley Vinicíus Freitas do Carmo, da escola Ernesto Monte.

Para ampliar a participação dos alunos, os representantes dos grêmios apostam no diálogo. “Falta conversar mais com eles, passar em cada sala de aula. Tem até gente do próprio movimento que não está interessado”, revela Keila dos Santos, da escola Vera Campagnani.

“Hoje, eles não pensam em ajudar o grêmio, e sim em cobrar. Nós estamos dentro de uma escola para auxiliar os alunos. Para isso, acho importante que conversemos mais com eles. Muitos são rebeldes e não querem ouvir a direção da escola. Nós podemos fazer essa ponte”, opina Wesley Murilo, da escola Carlos Chagas.

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Atuação

A professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Dalva Aleixo Dias, militou no movimento estudantil na década de 70 e início dos anos 80. Para ela, era uma época bem diferente da atual. “Havia maior visibilidade e união. Eu não vejo isso muito claro hoje”, opina.

Dalva lembra que o movimento costumava escolher uma bandeira e brigava arduamente por ela. “Naquela época, havia uma situação de total repressão. A primeira coisa pela qual a gente lutou foi a liberdade de expressão, a possibilidade de três alunos ou mais poderem conversar em um banco de praça sem serem presos ou enquadrados por subversão”, diz.

Segundo ela, as bandeiras não pararam por aí. “A segunda grande luta foi pela anistia, pois havia gente importante que havia saído e que nós precisávamos que voltasse. Depois, lutamos pelo ensino público e gratuito. Outra foi a volta dos partidos e instituições clandestinas, como a União Nacional dos Estudantes (UNE)”, relembra.

Dalva diz que o movimento estudantil também procurava se aliar a outros grupos. “Entendíamos que era muito importante a organização popular, ajudando a organizar movimentos de bairros e de mulheres”, declara.

Ela afirma que o movimento buscava fórmulas para despertar o interesse dos alunos menos engajados. “Para discutir com as pessoas, era preciso reunir e, para isso, a gente fazia o que elas consideravam mais prazeroso. Organizávamos campeonatos esportivos, tínhamos uma boate com três tipos de atividades. Também dávamos apoio quando alguma injustiça era cometida pela direção da escola contra eles”, recorda.

Dalva acredita que o perfil atual do movimento estudantil é bem diferente. “Há muito narcisismo e individualismo. A década de 80 tentou derrubar as nossas certezas. A de 90 foi de reconstrução e esse início de século começa a mudar, retomando de outra forma. Os estudantes não vão mais discutir se são de esquerda ou direita. Existem questões de divisão de renda e de desigualdade social importantes”, opina.

O presidente da Umesb, Rafael Gomes, discorda que o movimento estudantil era mais atuante em outros tempos. “Isso não é verdade. Hoje é o momento em que os estudantes mais participam. A gente ouve o discurso de que, no passado, durante a ditadura, a participação era maior, mas, hoje, quase todas as escolas da rede estadual têm grêmio organizado”, declara.

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