“Banco é para ganhar dinheiro. Os bancos estão ganhando dinheiro, vão ganhar e, se não ganharem, não teremos um sistema bancário saudável”. A afirmação do diretor-geral da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Hugo Dantas Pereira, serve de síntese para entender como os banqueiros vêem sua participação no País.
Executivo dos banqueiros, Dantas sabe que muitos economistas olham para sua corporação como um dos poucos redutos da economia onde o lucro é alto e o “esforço produtivo” é inversamente proporcional. Segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, a parcela da taxa de juros que corresponde aos lucro dos bancos é estimada em 40,1%. Os outros componentes são: despesas administrativas (14,1%), impostos e compulsórios (28,5%) e cobertura para créditos duvidosos - inadimplência - (17,3%). De acordo com a associação, no exterior a rentabilidade dos bancos é de 2% ao ano. No Brasil, é de 30% ao ano.
Mas Dantas defende que para continuar tendo um sistema financeiro saudável, o País precisa de bancos que continuem ganhando. O executivo também sabe que o ponto de discussão é o nível elevado de rentabilidade na comparação com os demais setores. Dantas não concorda e apresenta sua visão em uma entrevista exclusiva concedida ao JC antes de ter proferido uma palestra no auditório da Instituição Toledo de Ensino (ITE), na última sexta-feira.
Jornal da Cidade - Como o sistema recebeu a redução dos compulsórios? Hugo Dantas Pereira - Eu não entendo porque o governo ainda não tinha baixado os compulsórios. Muitos economistas e dirigentes de bancos da federação (Febrabran) falavam que já havia necessidade de queda há tempo. Havia condições. O problema não era de liquidez excessiva. Essa o Banco Central consegue retirar. O problema todo é que o dinheiro barato estava nas mãos do Banco Central no compulsório. 92% de todos os recursos de depósito à vista são formados por 62% que estavam com os compulsórios, 25% para o créditos rural, 8% no adicional de compulsório porque este é remunerado e 2% tinham acabado de ser destinados aos microempréstimos. Então sobravam 7% na mão dos bancos.
JC - O que significa a redução de 60% para 45% sobre os depósitos à vista? Dantas - Com essa liberação de 15% dos compulsórios sobre depósitos à vista, caindo para 45%, 22% dos depósitos à vista estão livres para os bancos aplicarem. Isso obrigatoriamente leva as taxas de juros sofrer um arrefecimento. Elas vão cair. Isso era importante para a economia e para os bancos. Porque no nível em que as taxas estão, a inadimplência tende a aumentar. E com esse nível de taxas, menos demanda existe por crédito. Isso é que é a verdade. Então para os bancos, interessaria que as taxas de juros baixassem. E isso poderia se dar com a redução dos compulsórios. E foi tímida a redução. Achamos que o compulsório cairá para 30% rápido.
JC - Que panorama o senhor vai traçar na palestra sobre o sistema de capitais no País? Dantas - O que eu vou tentar mostrar é a importância de um sistema financeiro, no caso de um sistema bancário, para um país. Vamos tentar mostrar o que aconteceu com o nosso País e a sorte que nós demos de termos tido um plano certo, no sentido do início de 1994 para 1995, de termos tido uma ação correta do Banco Central de corrigir as primeiras imperfeições que surgiram no sistema bancário. A partir disso tivemos um sistema bancário saudável. Agora, as condições saudáveis para que o País desenvolvesse não dependiam somente dos bancos no Plano Real. Existia também a possibilidade da poupança não ser toda tomada pelos bancos., que é o que acontece.
JC - Como assim? Dantas - A demanda do governo, a voracidade do governo por recursos, é muito grande. E como essa voracidade por recurso acompanhou esse Plano Real, a função do banco no sentido de intermediador financeiro tendeu a se manter muito estável nesse período em termos gerais, o que não era muito desejável. Agora talvez tenhamos condições, aos poucos, de poder crescer no crédito nesse País. Isso se o governo conseguir manter um superávit primário adequado de maneira que os juros não consumam cada vez a ambição de novos títulos e ele continue a demandar um volume grande de recursos. Pela primeira vez é possível se falar em um estudo de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) versus crédito. Porque todos os estudos são de Produto Interno Bruto (PIB) versus crédito.
JC - Os cinco maiores bancos do País detém hoje 57% do setor. Como fica a relação Febraban e governo? Dantas - Acho que isso precisa ser visto sob outro ângulo. O grande detentor do crédito neste País chama-se governo, com o Banco do Brasil, CEF, compulsórios e BNDES. Se somar essas fontes, não sobra nada para o sistema privado bancário, que é minoritário nisso tudo mesmo estando junto entre os maiores. Só o Banco do Brasil e a CEF detêm entre 30% e 40% do sistema se falarmos em ativos, empréstimos e depósitos. Então o fato de termos, em um conjunto dez dez bancos, 75% do crédito dos dez primeiros é porque temos um conjunto dos grandes bancos privados brasileiros sólidos. Temos um conjunto de bancos estrangeiros junto nesse grupo. Agora o Banco do Brasil e a CEF é públicos, são100% do governo e o outro, 82%. O governo não tem que lutar contra eles. O governo pode, através deles, ter certeza da concorrência. Concorrência não falta nesse setor. E as imperfeições do sistema não decorrem dessa concentração de bancos privados que você cita. Temos normas bancárias que podiam ser melhoradas. Agora o problema maior para esse sistema foi a CPMF. A CPMF foi o crime maior que existiu contra a concorrência para o cliente de pessoa física. E a culpa não é dos bancos, é da CPMF.
JC - Por que não existem linhas de crédito realmente acessíveis? Dantas - Vamos ver por outro lado. Que bancos não oferecem linhas de crédito mais baratas? Todos os bancos. Os estatais não oferecem, os maravilhosos estrangeiros que vinham aqui nos ensinar como dar crédito, ou os privados nacionais, grandes ou pequenos. Todos esses bancos têm taxas mais ou menos no mesmo nível, seja no cheque especial, no cartão de crédito, seja no crédito por pessoa física, seja no corporativo, onde se conseguem forçar taxas que estão abaixo do mercado externo. Uma corporação estrangeira que está no Brasil consegue aqui taxas, em determinado momento, mais baratas do que conseguiria no exterior. Porque existe um conjunto de bancos disputando o segmento. E eles são Banco do Brasil, Bradesco, Sudameris, ABN, Citybank e, às vezes, a CEF.
JC - O raciocínio está incorreto? Dantas - Acho que a observação pode parecer correta no sentido de que os spreads (a diferença entre as taxas de captação e a taxas cobradas no empréstimo) são mais elevados para determinado tipo de cliente, para determinado segmento de mercado. E são muito mais baixas para determinados tipos de clientes e produtos. Mas todos os bancos estão mais ou menos na mesma direção em termos de taxas. E se eles estivessem então combinados, você falaria em cartel, ou oligopólio? Mas como você pode imaginar que um banco que é 100% do governo e o outro que é 82% do governo, que dominam quase 40% do mercado de créditos, estariam combinados com os bancos privados contra os interesses do povo, que quer taxas mais baixas? É impossível.
JC - Então o senhor critica um erro de ação do próprio governo, através dos estatais? Dantas - Não, essas tarifas já eram assim. Quando você pega 7% dos recursos livres que os bancos têm de depósito à vista e só disponibiliza 7% para eles poderem aplicar em linhas, produtos e taxas que eles podem estabelecer, você entende o sistema. E com um spread baixíssimo em relação ao valor zero que ele tem para esse tipo de produto. E vamos esquecer quanto custa a captação de todas as demais linhas em que ele capta recursos. As linhas é que são caras. Os bancos pagam caro por recursos que tomam. No mínimo pagariam a taxa Selic. Dependendo do tipo de banco, ele tem que tomar o recurso mais caro. Se um banco, no momento em que ele precisa, toma recurso no mercado externo a uma taxa mais cara ele vai ter que continuar pagando caro no momento em que este recurso estiver mais barato. Até que aquela linha se esgote. Essa é a grande verdade. Por outro lado, o banco pode se beneficiar se o custo do dinheiro cai. Existem bancos que precisam captar recursos muito mais em CDB e CDI. Existem bancos que captam recursos em poupança. Mas a poupança está quase toda direcionada para o governo.
JC - Existe espaço para crédito mais barato? Dantas - Existe. Só esses 15% de depósitos compulsórios à vista que caíram hoje significam quase R$ 8 bilhões pelos números de julho. Esse volume certamente vai forçar uma queda para baixo das taxas de juros. O Bradesco anunciou hoje (sexta-feira) a queda de algumas de suas taxas. Mas é preciso certeza porque o banco empresta para uma operação de oito meses estabelecendo um juro fixo com o cliente, de acordo com o tipo de operação. O que acontece é que tudo leva a crer hoje que começamos um círculo virtuoso e saímos de um círculo vicioso. Tudo leva a crer, mais precisamos ver.
JC - A 1.ª votação da reforma é suficiente para mudar esse círculo? Dantas - O que aconteceu no momento foi a confiança no governo que se confirmou. Porque o governo demonstrou competência política para conseguir aprovar um projeto que, se financeiramente pode não dar nenhum resultado prático neste momento, no ano que vem já traz algum resultado e ao longo de dez anos traz um resultado um pouco melhor. Mas o governo mostrou competência política para a direção certa com essa votação da Reforma da Previdência. E terá que demonstrar competência para a Reforma Tributária, de não fugir à linha que ele traçou desde o início deste governo com o ministro Palocci. O mercado está acreditando nisso e dá esse crédito ao governo. Então certamente o mercado com isso arrisca um pouco mais. E o nível de risco que ele assume significa aumentar o volume e reduzir o ganho do banco. Mas o banco pode ganhar até mais agora porque ele tem mais recurso para emprestar. Ele tem um spread maior agora.
JC - Mas a rentabilidade dos bancos no Brasil é muito superior à do Primeiro Mundo? Dantas - No resultado das 30 maiores empresas brasileiras que saiu há dois meses aparecem dois bancos, um em primeiro e o outro em 27.º lugar. As demais 28 empresas não são do setor financeiro. O primeiro colocado é o Banespa porque reverteu uma previsão do tamanho de um bonde na área trabalhista. E o 27.º é o Itaú, que tem um nível de competência que justifica seu resultado sobre o patrimônio. No mundo inteiro os bancos de grande porte, que estão representados no Brasil, têm uma rentabilidade equivalente ou superior à nossa. Agora o resultados deles têm a ver com moedas bem mais estáveis que a nossa. O motivo é o dólar. Eles estão rodeados no exterior com uma situação muito melhor.
JC - Mas os lucros assustam para qualquer comparação com o resultado dos demais setores? Dantas - Os indicadores de lucro da parte boa de todo o sistema bancário neste ano são diferentes do ano passado. Há um estudo de três integrantes do Itaú que compararam o lucro no sistema bancário com o de outros segmentos. O estudo mostra que os bancos deram prejuízo ao longo dos últimos anos. Não pode olhar um único ano, precisa olhar 1994, 1995, quando fechou o Nacional, o Bamerindus. O sistema como um todo teve um resultado. Mas dependendo de como você olha o sistema bancário está pior que o sistema industrial. Se você comparar com os 30 melhores da indústria, o banco fica pior. Mas se você comparar com os dez melhores da indústria, então os bancos ficam em situação melhor. Mas os maiores lucros do País não são dos bancos. O maior lucro do País é de uma estatal que se chama Petrobras. E um lucro excelente que agora está no setor privado é a Vale do Rio Doce, da mineração. Agora os bancos estão ganhando dinheiro, vão ganhar dinheiro e, se não ganharem, não teremos um sistema bancário confiável, saudável e que permita a esse País se desenvolver. Banco é para ganhar dinheiro. E dinheiro é crédito. Não vai ser o governo que sozinho vá dar esse crédito para o desenvolvimento.
JC - E o repasse da inadimplência? Dantas - Não acho que é adequada a expressão repasse da inadimplência. Um banco não empresta apenas o capital dele. O patrimônio líquido do sistema Itaú está na ordem de R$ 10 bilhões, um pouco abaixo o Bradesco. Eles não trabalham com R$ 10 bilhões apenas, eles trabalham com os recursos de seus clientes. Então ele tem um volume de depósitos. Então temos um volume de créditos da ordem de R$ 380 bilhões mas temos um volume de depósitos à vista, a prazo, CDB e de poupança e de fundos. Todo esse conjunto de recursos é que se destina ao crédito ou a financiar o governo, vamos dizer assim. Se por acaso existe um grau de inadimplência ele pode estar perdendo os recursos que o depositante colocou. Se você colocou 10 e só tem meios para pegar cinco e não pagar, como ele devolve os 10? Só com o patrimônio. Ele tem que tirar do patrimônio. O banqueiro tem obrigação de bancar o seu depósito, mas não tem patrimônio suficiente para garantir o depósito todo. E nem isso é exigido e nem pode. A inadimplência seja conosco ou em qualquer lugar ocorre assim. O Banco do Brasil age para manter o patrimônio dele estável, caso contrário ele não consegue credibilidade e não consegue captar recursos. Então os custos vão afetar as taxas de juros.
JC - E as taxas reais do cheque especial de 120%, para descontar duplicata é 75%, cartão de crédito custa 230%? Dantas - Para quem não está em condições de pagar é o maior risco, paga mais caro. Se eu tenho certeza de que vou receber posso cobrar uma tarifa diferente. As operações que têm uma garantia razoável, num prazo razoável, têm um spread muito melhor. Por exemplo, veículos. Porque o financiamento de veículos cresceu tanto no País? Porque não é você que é o risco. O risco que eu tenho é de não receber a garantia, mas essa garantia existe. Têm bancos com pátios de veículos. Então as taxas variam em função do grau da garantia. No caso do cheque especial não é empréstimo. É algo sem nenhuma garantia. Não vou defender a taxa cobrada no cheque especial. Só digo que não tem nenhuma garantia.