A última Parada do Orgulho Gay realizada em São Paulo contou com a presença de cerca de 1 milhão de homossexuais e simpatizantes, de acordo com a Polícia Militar e a organização do evento. Na mídia, nota-se o esforço de novelistas e apresentadores em tratarem o homossexualismo de forma politicamente correta. Porém, ao mesmo tempo em que a sociedade parece mostrar-se mais tolerante, a Igreja Católica assume uma postura de ataque contra a união de pessoas do mesmo sexo.
Na semana passada, o Vaticano divulgou o documento “Considerações sobre as propostas de dar reconhecimento legal a união entre pessoas homossexuais”, que pede a políticos católicos de todo o mundo um posicionamento contra as leis de casamentos homossexuais.
O documento, de 12 páginas, foi redigido pela Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé com a aprovação do papa João Paulo II, e diz que “o reconhecimento legal das uniões homossexuais não só supõe aceitar comportamentos disvirtuados, mas obscurece valores que pertencem à humanidade”.
A adoção de crianças por casais homossexuais é atacada como “um ato de violência contra as crianças”. Durante toda a semana passada, houve atos de repúdio ao documento no mundo todo.
Na opinião do psicoterapeuta Ricardo Mokdici, o posicionamento da Igreja Católica afasta muitas pessoas de sua fé. “Na Idade Média, a Igreja usou os homossexuais como lenha nas fogueiras da inquisição. É triste quando você vê instituições religiosas que pregam ‘amai-vos uns aos outros como eu vos amei’, que é o maior mandamento cristão, e de uma forma direta ou indireta, estimula o preconceito”, comenta Mokdici.
Mokdici é voluntário na Sociedade de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru (Sapab) e foi convidado pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) a participar da organização do Núcleo Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (GLBT) do partido.
Em razão do documento do Vaticano, o Núcleo GLBT do PSTU divulgou uma carta à imprensa, repudiando a campanha contra os homossexuais. A carta diz que o documento traz argumentações arcaicas e intransigentes, com ordens claras para que os países impeçam qualquer lei que facilite a união civil homossexual.
“É inaceitável que depois de anos de luta, a Igreja insista em condenar, denegrir e exterminar conquistas homossexuais como o casamento, adoção e contrato civil”, afirma a carta. De acordo com a jornalista Isabel Carvalho, o Núcleo GLBT está começando a ser organizado em Bauru e tem a intenção de promover debates políticos sobre o tema.
Religião e preconceito
Diversos padres de Bauru foram procurados pela reportagem do Jornal da Cidade e todos preferiram não comentar o documento do Vaticano ou a união homossexual, evitando causar polêmica e repercutir as declarações aprovadas pelo papa João Paulo II.
Na opinião do pastor Nilton Baro, presidente do Conselho de Pastores Evangélicos de Bauru, o homossexualismo é decorrente da falta de amor dos pais para com as crianças. “A Bíblia diz que a união de dois homens ou duas mulheres não é correta. Mas Deus julga o pecado e não os pecadores. Temos hoje diversas pessoas que, através da fé, conseguiram abandonar esta vida e hoje possuem famílias e filhos”, comenta.
Ele diz que nenhuma igreja tem o papel de discriminar os homossexuais, mas sim de acolhê-los. “Com o amor de Jesus, qualquer pessoa volta para o caminho indicado na Bíblia”, diz o pastor Nilton.
De acordo com a Constituição Estadual, a discriminação contra homossexuais, bissexuais ou trangêneros é crime (leia mais acima).
Uma das intenções do Núcleo GLBT do PSTU é reforçar as leis existentes com projetos municipais, orientando e conscientizando a população. “É proibido a qualquer estabelecimento comercial ou público coibir qualquer troca de afetos entre pessoas, sejam dois homens ou duas mulheres. As pessoas têm o direito de gostar ou não de negros, de gays ou de lésbicas, mas expor esse preconceito em forma de discriminação é crime”, afirma Mokdici.
Em caso de atos preconceituosos, o coordenador da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil de Bauru (OAB), advogado Sandro Fernandes, orienta que as pessoas procurem seus direitos. “Pode ser registado um boletim de ocorrência. O estabelecimento ou a pessoa podem ser acionados por ofensas à integridade moral da pessoa que foi afetada pelos atos discriminatórios”, esclarece.
Aceitação
Mokdici comenta que vem notando uma grande mudança no comportamento dos adolescentes homossexuais. “As pessoas com menos de 25 anos, e principalmente entre 16 e 18 anos, têm mostrado uma coragem que é de tirar o chapéu. Eles compram briga com os pais se assumindo, e os pais passam a aceitá-los ou compreendê-los melhor”, indica.
Ele relembra que muitas pessoas já entraram em crise ou até tentaram o suicídio após ouvir sermões religiosos que recriminavam o homossexualismo.
“Que representante de Deus é esse que, ao invés de promover a união, estimula a homofobia?”, questiona o psicoterapeuta.
A aceitação própria é um ponto fundamental, na opinião de Mokdici, para as pessoas compreenderem melhor sua sexualidade e como a sociedade encara o homossexualismo. “A sua sexualidade só cabe a você. Você precisa se aceitar para ter coragem de levantar uma bandeira ou lutar pelos seus direitos. Quando você não se aceita, por ‘n’ motivos apresentados pela sociedade, você cala diante das injustiças e do preconceito”, conclui.
Serviço
Denúncias de discriminação e preconceito podem ser feitas pelos telefones do Ministério da Justiça (0800-99-0500) e da Ordem dos Advogados do Brasil, na Comissão de Direitos Humanos (14-227-3636). A comissão se reúne toda quarta-feira às 19h, na sede da OAB. Para dúvidas e orientações, pode-se procurar o Disque-Saúde (0800-61-1997).
* * *
Crime
A Lei Estadual nº 10,948, de 5 de novembro de 2001, diz que será punida toda manifestação atentatória ou discriminatória praticada contra o cidadão homossexual, bissexual ou transgênero.
São atos atentatórios praticar qualquer ação violenta ou constrangedora; proibir a entrada ou permanência em qualquer estabelecimento ou ambiente aberto ao público, público ou privado; praticar atendimento selecionado; praticar a demissão direta ou indireta em função da orientação sexual; inibir a admissão ou acesso profissional em função da orientação sexual; proibir a livre expressão e manifestação de afetividade. (Da Redação)