Uma escapada até Buenos Aires será sempre um bom programa. Os preços, comparados com os de São Paulo, se equivalem. Em Buenos Aires, a alimentação e os táxis são muito, muito mais baratos. Nada melhor para uma esticada. Três pesos valem três reais, que valem um dólar. A cidade fantástica, que é Buenos Aires, coloca-se aos pés dos brasileiros. Brasileiros, que no mês de julho viajaram para a Argentina 30% a mais que no ano passado. Os ricos vão para Bariloche e outras plagas. A classe média vai em peso para Buenos Aires. Numa casa de tango famosa, com um espetáculo deslumbrante, encontrei um bem-humorado gaúcho de Passo Fundo. Chamava-se Nero. Antes que estranhasse o nome, acrescentou que só conhecia outros Neros como cachorros e bravos. Quando ameacei brincar com gaúchos, perguntou-me logo como identificar um gaúcho no meio de uma boiada. Respondeu: “Tem que olhar por baixo para ver quem está de bota.” Daí lembramos da Salomé do Chico Anízio e de copas em copas de delicioso vino de Mendoza, terminamos numa farra pela noite adentro. É bom lembrar. Janta-se após as 22 horas e a vida noturna ferve por volta de 2 horas da madrugada. Diversas calles de Buenos Aires não dormem nunca, dizem com prazer, os porteños. A atenção e o carinho dos porteños com os brasileiros são proverbiais.
As dificuldades do país são como as nossas. Tremendo desemprego. Enfim, países emergentes espremidos pelos circuitos financeiros do capital globalizado. As margens de manobras diante do FMI são estreitas. Lula, no fio da navalha, para manter a casa em ordem, recebendo os cobres do FMI negociados pelo Fernando Henrique. Kirchner, recém-eleito, negociando o escalonamento da dívida argentina com o FMI. Lula, sofrendo o imenso desgaste de negociar as reformas, nas quais apostou todos os cacifes. Kirchner, fazendo todo tempo marquetagem, como fez Lula, procura ganhar tempo até as eleições para chefe de governo de Buenos Aires no fim de agosto. A imprensa começa a dar sinais de críticas ao estilo marqueteiro de Kirchner. Começa a chamá-lo de presidente de “abrazos e besos”. Alguma semelhança com nosso Lula?
Causa estranheza para nós brasileiros, que somos, por um desvio qualquer da natureza, sempre otimistas, o clima de baixo astral dos portenhos. Os jornais mostram pesquisas onde apenas 20% da opinião pública está otimista quanto ao futuro. Estes números são comemorados e contabilizados por Kirchner. No ano passado, a porcentagem chegava a quase zero. Nós, brasileiros, imprudentes tínhamos, no final do ano, quase 70% de otimismo com a eleição de Lula. O otimismo caiu, mas deve andar hoje por 50%. É a imprudente alegria do samba, contra a dor trágica do tango. O clima de baixo astral é sentido um pouco em cada canto. Especialmente, uma tremenda desilusão com os políticos. Ninguém parece acreditar em ninguém. A conseqüência é uma aparente despolitização generalizada.
Eleições, por aqui, não provocam o sururu brasileiro. Correm na imprensa e na TV. Cartazes são pregados em locais especiais. Ibarra, jovem e elegante, administrador da Capital, concorre à reeleição. Beneficia-se do clima de otimismo trazido por Kirchner. Subiu nas pesquisas recentemente e entrou no páreo. Ibarra parece circular melhor entre a forças políticas tradicionais. Procura compor com todo mundo. Sobe nas pesquisas. A eleição é ainda incerta. Bom mesmo são os deliciosos Malbec de Mendoza, os fantásticos assados criollos e a espetacular comida italiana. As deliciosas alegrias da noites porteñas são um caso à parte... (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas da USP)