Administrar em início de gestão é difícil. Leva algum tempo até que os administradores tomem pé da situação e planejem suas atividades para depois executá-las. Imagine agora se, além disso, são muitos os problemas a resolver. A regra geral para a solução de múltiplos problemas é estabelecer prioridades, o que é outro problema. Por onde começar? O que pode esperar? A definição do que vem primeiro deve sair do confronto entre a importância e a urgência de cada um. O que combinar essas duas condições em maior grau deve ser atendido em primeiro lugar. A partir daí elabora-se uma lista decrescente. Mas há os que podem ser tratados simultaneamente sem prejuízo dos demais e com eles se completa a lista. Parece simples mas aí está a grande dificuldade. Mesmo nas decisões individuais a gente sempre tem dúvidas do que fazer primeiro, que dizer, então, de uma organização complexa como a do governo nacional, com três poderes formados por grupos com interesses conflitantes?
Veja a enrascada em que se meteu o presidente Lula, que quer acabar com a fome, quer fazer a reforma agrária, a reforma da Previdência, a reforma tributária, e tem de manter funcionando bem o que não vai ser reformado. O vai e vem dos projetos e relatórios, acomodando aqui, acomodando ali, mostra que o governo está meio perdido, querendo acertar tudo ao mesmo tempo. Até parece o caçador frente a um bando de aves - se der um tiro de rifle, com certeza mata uma mas espanta as outras, então resolve dar um tiro de espingarda, quem sabe se os chumbos espalhados acertam mais de uma.
O que assusta mais é o aumento da pobreza com suas conseqüências. Em 1798, o monge inglês Thomas Robert Malthus publicou o famoso “Relatório sobre a população”, alertando que, como a população vinha crescendo em progressão geométrica enquanto a capacidade produtiva da terra crescia em progressão aritmética, haveria uma “fome gigantesca e inevitável, com doenças e esfacelamento do tecido social”. Isso não ocorreu como ele previa porque a emigração européia para as Américas e o aperfeiçoamento da agricultura e da pecuária, nos séculos seguintes, evitou que acontecesse. Evitou naquela época e na Europa, mas não evitou que viesse a acontecer mais tarde em outras partes do mundo, em virtude da colonização predatória e exploradora, que formou um mundo de menos de uma dezena de países ricos e centenas de países pobres.
Há regiões, principalmente na África, onde muita gente está morrendo de fome, apesar da capacidade de produção de alimentos de outros países ser suficiente para dar de comer a todos com folga. Por que isso não acontece? Em primeiro lugar porque o egoísmo dos homens e das nações, que possuem recursos, não deixa. Segundo, porque a urbanização, resultante do êxodo rural, inchou as cidades de cortiços e favelas superpovoados de pessoas desempregadas. Nos países da África, a situação ainda se agrava com as guerras entre grupos étncos.
Esse problema não deveria existir no Brasil onde a capacidade de produzir alimentos supera as necessidades de consumo. Mas existe e agora querem fazer um retorno ao campo, numa luta inglória porque os que já são proprietários, com longa tradição rural, não estão conseguindo sobreviver. Como transformar esses moradores urbanos em produtores agrícolas? Problema sério para o governo do PT. Como seus representantes sempre estiveram ao lado dos movimentos reivindicatórios, agora os sem-terra e os sem-teto acham que podem tudo e vão invadindo terras e prédios na ilusão de que o governo vai protegê-los, mesmo ao arrepio da lei. Ilusão porque se o governo perder o controle sobre esses movimentos estará liquidado e o País poderá entrar em convulsão. Mas o problema não é mais só do PT. O problema é do Brasil e a oposição, em vez de rir e exprobar a situação governista, deve ajudar na solução porque se piorar vai arder pra todo mundo.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é administrador e ex-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru.