É o que dizia, sobre a reforma agrária, a maioria dos que tinham interesses a preservar no setor agrário do Brasil, nos anos de 1960. Era o período das “ligas camponesas” fundadas e comandadas por Francisco Julião, em Pernambuco. O Brasil já estava atrasado nessa matéria 300 anos, considerando-se que uma das primeiras medidas tomadas na Revolução Francesa, em 1789, foi a redistribuição da propriedade da terra.
Na Roma Antiga, Caio Graco e Tibério já discutiam sobre o tema. Os Estados Unidos fizeram sua reforma agrária por volta de 1860 e a retratam em inúmeros filmes que Hollywood produz sobre o “velho oeste”. Além disso, os americanos, após a vitória sobre o Japão na II Guerra Mundial, em 1945, impuseram aos japoneses a reforma agrária desmontando parte do sistema feudal ali existente. Por volta de 1920, o México, dos revolucionários Zapata e Pancho Villa, também fez a sua redistribuição de terra.
Na maior parte da Europa, após a Revolução Francesa a monarquia perdeu força facilitando uma reforma agrária natural. Os minifúndios são marcas centenárias do modelo agrário europeu e, fortemente organizados, influenciam a economia européia.
O Brasil cultiva o problema agrário do tempo das capitanias hereditárias, da época do Brasil Colônia e até hoje não conseguiu resolver essa questão. Com as tecnologias e os maquinários cada dia mais modernos os agronegócios, que parecem ir muito bem, dispensam a ajuda dos minifúndios para melhorar os números da agricultura. Remetem a questão agrária da área econômica para a área social. A reforma agrária se prestará a agricultura de subsistência. Vai ajudar mais o Fome Zero do que a balança de pagamentos. O êxodo rural dos anos 60 e 70 inchou as periferias das grandes cidades e produziu os bóias-frias. Décadas depois, com sonhos frustrados, a vocação perdida, marginalizados e excluídos, a maioria deles quer fazer o caminho de volta.
O MST, movimento dos sem terra, há muito deixou de abrigar apenas os que são agricultores por vocação e que por infortúnio encontram-se sem seu principal instrumento, a terra. A crise econômica, que o País vive há mais de 20 anos, empurra para as asas do MST milhares de desempregados ainda que não possuam nenhuma vocação para o campo. Eles têm nessa opção uma das suas últimas esperanças.
Portanto, o MST que por vezes extrapola os limites da legalidade pode cumprir um papel importantíssimo nesta crise, utilizando sua organização e liderança para evitar que os esquecidos pela sociedade e pelo governo busquem, pelas próprias mãos, justiça social como buscaram os súditos de Luís XVI.
A reforma agrária pode ter a simpatia dos antigos ou neocomunistas, mas não é coisa deles. Na Rússia comunista não houve reforma agrária. Lá, a Revolução Bolchevique tomou as terras para o Estado e coletivizou a produção. Se o Czar tivesse feito a reforma agrária, provavelmente, a história seria outra. O Czar não quis abrir mão do poder que os latifúndios lhe proporcionavam e da miséria que impunham ao povo, deu no que deu.
No Brasil, além de não ser coisa de comunista, também deixou de ser da área econômica. Hoje, mais do que nunca, trata-se de uma questão social e precisa ser vista e resolvida como tal.
O autor, Tidei de Lima, é ex-prefeito, ex-deputado federal e ex-secretário de Estado da Agricultura.