No curso de pós-graduação da USP tive um colega que desenvolvia uma tese sobre o turbante da Carmen Miranda. Interessante... começava com a história da primeira viagem de navio da cantora que iria tentar a vida em Hollywood. No tombadilho, para matar o tempo, a garota ensaiava os seus requebros com um turbante para proteger os cabelos do vento. Sem querer ganhou uma cor brejeira ao se expor ao sol. Os passageiros assistiam aos ensaios enquanto se serviam do bufê da tarde onde eram oferecidos chás, bolachas e frutas. Para aumentar o frisson da platéia e dar um ar mais exótico ao bamboleio, Carmen enfiou umas bananas no turbante. A platéia constituída de norte-americanos, na maioria, entrou em êxtase. Inteligente, percebeu que havia descoberto a fórmula do sucesso. Encheu-se de balangandãs e estilizou o turbante. Bingo! A imprensa deu em cima da brasileirinha nascida em Portugal. Contrato assinado, fez uma série de filmes de boa bilheteria no mundo inteiro.
Os estrangeiros são vidrados nos trópicos e suas belezas naturais. A ópera “O Guarany”, de Carlos Gomes, foi apresentada no Scala de Milão justamente por explorar o amor em plena floresta virginal com todo seu esplendor selvagem. Compositores iguais a ele havia pelo menos uma centena na sua época, na Itália.
O reboliço causado pelo boné com o distintivo do Movimento dos Sem Terra (MST) que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou na cabeça já rendeu inúmeras reportagens, editoriais e ensaios. Dentro em breve estarão surgindo teses acadêmicas sobre essa peça muito utilizada como ferramenta de marketing. Vão começar contando que no século 13 usavam bonnet, uma touca de tecido para dormir. Como não tinham o hábito o hábito de lavar os cabelos, o acessório servia para proteger o travesseiro da gordura do couro cabeludo. Mas os primeiros a adotar os bonés na modelagem que usamos hoje foram os jogadores de beisebol norte-americanos, no final do século 19, para que o sol não atrapalhasse as jogadas. Hoje as grandes grifes esportivas já tratam o boné como acessório de moda e investem na criação de diferentes modelos para marcar presença. Um dia os pesquisadores vão falar da importância do boné na reforma agrária brasileira.
Notícia é aquilo que é importante para o público. Quem escolhe o que vai ser publicado é o jornalista. Então, notícia é o fato que é importante para o jornalista. Isso é o que determina o que os comunicólogos norte-americanos chamam de agenda setting. O importante para o editor não é o que pode modificar o mundo e sim o que atinge mais amplamente o mercado. Há quase uma semana a imprensa fala sobre a galinha preta atirada no palco onde estava a prefeita Marta Suplicy. A gafe do ministro Márcio Thomas Bastos ao comparar galinha com veado coroou o espetáculo da notícia. Há quem sugira que se atire um veado preto (será que existe?) em Arnold Schwarzenegger que se arvora em candidato ao governo da Califórnia.
E o “beijaço” dos gueis no Shopping Frei Caneca, em São Paulo? Que tese psicossocial! O beijo revela amor. A censura, ódio. Os seguranças nem queriam deixar que andassem de mãos dadas. Expulsaram do Eden do Consumo a dupla que se beijava. “Alfredo: dois elementos se beijando em público. Câmbio”. “Positivo, Jarbas. Mas eles estão a fim de comprar? Câmbio”. “O problema é que são dois homens, Alfredo. Câmbio”. “Positivo. Positivo. A nível de macho não é permitido. Põe pra fora. Câmbio”. “Positivo. Desligo”.
A importância da sexualidade sob ameaça. A Ciência que sempre chega depois da Arte já confirmou que não se pode dividir a humanidade em masculino e feminino apenas. Gilberto Gil cantou a porção mulher que vive nos machos. Por que razão devemos declarar se pertencemos ao sexo masculino ou feminino para uma simples hospedagem num hotel? Não bastaria o cartão de crédito, a certeza do pagamento da fatura? Aguardemos as respostas dos estudos epistêmicos.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.