08 de julho de 2026
Ser

'A guitarra transmite o que sinto'

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

Ninguém vai acreditar, mas um dos músicos brasileiros mais cultuados pelos fãs de rock pesado no Brasil e no Exterior começou sua relação com a música tocando Guilherme Arantes e etc no violão. Andreas Kisser, 34 anos, guitarrista da banda de heavy metal Sepultura, casado com Patrícia e pai de Giulia, 8 anos e Johann, 6 anos, afirma que não curtia muito aquele estilo, mas confessa que ele foi fundamental para o aprendizado da base musical, antes de partir para a guitarra elétrica e o violão clássico, que é sua paixão.

Dono de algumas guitarras, que vai comprando para tocar outras bandas ou investir em outras parcerias, como a que encara agora com Os Paralamas do Sucesso, dentro do projeto Pão Music, Andreas Kisser conta que não tem o hábito de batizá-las, mas elas passam a fazer parte dele. “A guitarra que tenho na mão é aquela que está transmitindo o que eu estou sentindo.”

O guitarrista anuncia que as brigas entre os integrantes da banda, que nasceu em São Bernardo do Campo, acabaram, e mais amadurecidos vão completar duas décadas de carreira no ano que vem. Este ano, pretendem lançar o último álbum em terras tupiniquins, onde fazem também, no próximo mês, uma turnê com o Deep Purple.

Os detalhes destas e outras histórias até pitorescas, você confere na conversa exclusiva para o caderno Ser, realizada antes do show de aniversário de Bauru.

Jornal da Cidade – O que um metaleiro está fazendo numa turnê dos Paralamas do Sucesso e com cadeira cativa? Andreas Kisser – Tocando, né. (risos) Eu fui convidado para tocar com eles e fiz o ano passado no Rio de Janeiro, também pelo mesmo projeto Pão Music. Pô! Para mim é uma honra! Eu toco músicas deles, eles vão tocar Legião Urbana também... Isso é arejar, respirar ares diferentes, música diferente, e como eu já disse, é uma honra tocar com eles nesse show.

JC – Mas você é um metaleiro convicto ou tem a liberdade de que se, de repente, alguém bem estranho lhe chamar você vai? Por exemplo, se Sandy & Júnior lhe chamassem você iria? Kisser – Eu já toquei com a Adryana e a Rapaziada. (risos) Então, eu acho que para mim não tem muito esse lance de preconceito de imagem. Todo mundo aqui gosta da música e a gente se entendendo nessa linguagem, acho que está valendo. É bom participar disso, lhe abre novos horizontes, você aprende muito mais... Você aprende a conversar com músicos diferentes com os seus instrumentos e mesmo assim, você é respeitado pelo que você toca. Eu vejo o Sepultura que tem um certo estilo e não é tão divulgado pela mídia, não é uma coisa que toca em rádio... Mas eu sou uma pessoa respeitada pelo que faço e o que der para fazer aqui é lindo.

JC – Agora, eu sinto muito... vou ser obrigada a perguntar: o que você tocou com a Adryana e a Rapaziada? Kisser – Ah! Foi uma coisa inusitada. Quando começou o programa do Marcos Mion, na Bandeirantes, eles fizeram umas misturadas: colocaram a Adryana, o Chrigor, eu, o baixista do Ultraje e o Bacalhau, outro baterista, e nós tocamos juntos, inclusive Paralamas e Legião. Foi um experiência, né... Não é uma música que eu escuto, não é uma coisa pessoal, mas musicalmente é tipo uma pós-graduação. Você tem certas oportunidades de tocar com gente diferente, de usar sua guitarra em outros estilos, porque isso é que é música, isso é tocar e é saudável.

JC – Quando você não está tocando, o que está escutando? Paralamas pra caramba e o que mais? Kisser – Do Brasil, eu gosto muito do Samuel do Skank, do Titãs, do Nando Reis, da Cássia Eller, o projeto novo da Lan Lan é bem interessante, o Ira é bom e outras coisas mais undergrounds que fazem parte do mundo Sepultura, como Clautrofobia, Necromancia, as bandas de São Paulo. E os dinossauros que eu sempre escuto: Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath... Coisas novas como Cris Stoneage, que eu gostei pra caramba, Massive Attack, muita coisa. Acho que o Sepultura aprendeu a ter ouvidos e mentes abertas para absorver. A gente viaja muito, por várias partes do mundo, e você vai conhecendo músicas novas, músicas cantadas em outra língua, mas com ritmo diferente. Então, a gente aprendeu a sorver das coisas boas.

JC – Não sei há quanto tempo você está aqui no Brasil, mas a gente está percebendo um movimento anos 80 muito forte, uma onda de saudosismo muito grande. Paralamas, Kid Abelha, RPM, Capital Inicial, Ira, está todo mundo de volta e com força. É claro que existe dentro disso um movimento MTV, mas devidamente alimentado pelo povo que ouvia essa turma na época em que ela surgiu na cena musical brasileira. Kisser – É natural isso. A cada 20 anos, a gente tem aquela coisa de se ver mesmo, uma reciclagem. No meu tempo de escola, eram os bailes dos anos 60, sacou? Isso quando a gente estava nos 80. Agora, nos anos 2000, é aquela coisa de 20 anos atrás. Não só na música, mas na moda, essas coisas. Acho que é natural é aquela coisa de juventude mesmo, de estar sentindo saudade daqueles tempos em que se era mais jovem, mais irresponsável e curtindo as coisas sem pensar duas vezes. Acho que isso é bom, você vai revivendo.

JC – E o Sepultura? Você está meio licenciado da banda? Kisser – Em agosto nós estamos por aqui. Nós acabamos de chegar de uma turnê de quatro meses pelos Estados Unidos e Europa, fizemos 85 shows em 120 dias e fomos para tudo quanto é lugar. O disco já saiu lá fora, só que aqui no Brasil a gente não tem um contrato ainda. Está difícil achar uma gravadora que possa investir.

JC – Sempre foi assim? O Sepultura também está na faixa dos 20 anos de carreira e está ainda na briga do início? Kisser – O Sepultura vai fazer 20 anos o ano que vem e digo para você que vida de músico não é fácil. Você tem que estar viajando, indo onde o público está realmente. Mas eu tenho prazer em estar no palco, então, não é um sacrifício. A minha vida é essa carreira e eu curto pra caramba. A gente só está com a parte burocrática aqui no Brasil para que o disco seja lançado. Vamos fazer quatro shows com o Deep Purple aqui no Brasil, em setembro. Vai ser Porto Alegre, Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte, 18, 19, 20 e 21 de setembro e espero que até lá o novo disco já esteja na praça.

JC – Os bons instrumentistas brasileiros têm todo o respeito e respaldo no Exterior. O caso de vocês não deve ser diferente disto. Kisser – Com certeza. O Sepultura foi muito mais trabalhado lá fora do que aqui, onde ainda existe muito preconceito pelo estilo que a gente faz. Não é uma coisa que toca em rádio, uma coisa que você vê em novela. Não é uma coisa que você vê na televisão toda hora, sacou?

JC – Mas você gostaria de ter uma música na novela? Kisser – Se tiver a ver, por que não? Música é música, não é porque é Sepultura que é uma coisa impossível. A gente faz a música que faz e ela pode servir para várias coisas, comercialmente falando. Eu também tenho feito algumas trilhas sonoras, que é uma coisa totalmente diferente de banda, mas usando elementos que eu uso no Sepultura: distorção, aquela coisa pesada. Então, tem espaço, tem público. Mas a mídia aqui no Brasil é ainda devagar para este estilo, mas é uma coisa que não é nova para a gente que cresceu neste ambiente.

JC – A gente é de um tempo onde existia uma geração bem mais heavy metal, mas a gente viu parte dessa turma “migrar” para o pagode. Aconteceu isso mesmo? Kisser – Acho que sim, desde o final dos anos 80, antes do grunge, do Nirvana, o pessoal era bem metal mesmo, curtia Poison, Motley Crue, aquelas m... todas. Depois tinha Mettalica, Slave, Scorpions, que ainda tem, e era uma coisa mais divulgada. Mas é o lance do rock. No caso do grunge, tinha espaço para todo mundo. Eu digo sempre que o rock nunca morreu. A gente é a conexão direta com os nossos pés, não depende da mídia e por isso que a gente está sobrevivendo e tem uma história, uma ligação direta com os fãs e acho que isso ninguém tira da gente.