Araraquara - O governo federal vai comprar parte da safra agrícola produzida nos assentamentos do País. A promessa foi feita ontem pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, durante visita ao programa Escola no Campo, instituído na vila Bela Vista, que reúne 180 famílias assentadas desde 1989. Rosseto também prometeu que o financiamento agrícola vai chegar aos assentados em tempo hábil para a realização da safra em 2003.
Em seu discurso aos pequenos produtores, Rosseto disse que o governo federal já formalizou acordo para a compra de 90 toneladas de feijão da safra que está sendo produzida pelos assentados no Pontal do Paranapanema (SP). “Vamos comprar a safra e garantir financiamento de pelo menos 80% da produção em vários assentamentos”, afirmou. A medida será repetida em outras localidades, mas o ministro não informou quais serão os critérios e o volume total de compra pelo governo.
Já o ministro da Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano, que também visitou Araraquara, reforçou que a União vai comprar a produção de pequenos produtores em todos os Estados para o programa de distribuição de alimentos. Serão pagos até R$ 2,5 mil para cada produtor.
Miguel Rosseto visitou a feira dos pequenos produtores e a vila dos assentados. A feira comercializa em Araraquara os produtos hortifrutigranjeiros produzidos nas vilas. O assentamento Bela Vista conta com escola fundamental até a 8.ª série, posto de saúde com Programa de Saúde da Família, cozinha coletiva experimental e padaria artesanal.
Os trabalhadores receberam o ministro com música, presentes e cordialidade. “Este é o modelo de relação que queremos para o País. Os trabalhadores rurais devem dialogar com o governo. Vamos fazer a reforma agrária, e sem violência e invasões”, aproveitou o ministro.
Na lista de reivindicações, os assentados incluíram crédito em tempo ideal para a safra, crédito para moradia no campo, programa de conservação do solo, sementes e mudas e revisão no atual Programa de Financiamento (Pronaf). “O Lula autorizou R$ 5,4 bilhões para financiar a safra que vai até julho do ano que vem para a agricultura familiar. Prometo que o dinheiro vai chegar a vocês no tempo certo, para permitir o preparo, o plantio e a colheita. O dinheiro não vai atrasar”, discursou.
O ministério também anunciou a instalação de um escritório regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Araraquara. “Queremos que os assentamentos tenham suporte de um agrônomo e de técnicos do governo nesse escritório”, destacou.
Rosseto disse que a reforma agrária é um instrumento de geração de trabalho e de produção de alimentos. “Queremos valorizar a agricultura familiar. São mais de 4,2 milhões de agricultores familiares no Brasil que produzem quase 40% de tudo o que é produzido na agropecuária brasileira. Este espaço aqui de Araraquara está se multiplicando em todo o Brasil e é um modelo adequado”, observou.
O ministro disse que a pasta vai entregar terra para 60 mil famílias em 2003. “Estamos concluindo o cadastramento. O número de invasões no campo em 2002 foi atípico por causa do ano eleitoral. Estamos atuando para realizar o programa sem violência e com diálogo. Não há razão para crescer o conflito agrário. Temos uma agenda de paz e para reduzir os conflitos”, argumentou.
A região que mais preocupa o governo é a dos Estados de Pernambuco e Alagoas, onde estão situadas as relações de maior tensão nas ocupações de propriedades privadas. “Não queremos mais morte e violência no campo. O campo é para produzir e gerar trabalho”, finalizou.
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Comprar máquina
O assentado José de Souza Filho está em Araraquara desde 1989, quando o governo distribuiu 3.400 hectares de terras improdutivas para os sem-terra que se cadastraram na época. Natural de Pirajuí, na região de Bauru, Souza vive no assentamento com sete filhos.
Desde então, o agricultor espera financiamento para a compra de máquinas. “A prefeitura colocou a escola e o posto de saúde. Nós recebemos a terra e agora precisamos de dinheiro para comprar máquinas”, disse ele durante a visita do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto.
José recebeu 6,5 alqueires de terra, a exemplo de cada um de seus colegas. O mesmo aconteceu com Adenilson Pereira dos Santos, que veio de Salinas (MG) atrás de um pedaço de terra para plantar e sobreviver. “Nós produzimos cada um o seu e não deu certo a cooperativa de produtores. Só dá para plantar mais e aumentar a produção se a gente puder comprar máquina”, reforçou.
No assentamento, Souza e Santos produzem milho, feijão e café, além de outros produtos para o consumo próprio das famílias. O excedente é comercializado na feira semanal e vendido para terceiros.
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