08 de julho de 2026
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Espetáculo adiado


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O “espetáculo do crescimento”, programado para julho, nem começou e já foi adiado. Em seu lugar, vieram outros: o das invasões, por exemplo, numa referência do governador Alckmin às atividades dos sem-terra e dos sem-teto; o do desemprego, que, em junho, chegou aos 13%, segundo o IBGE; e o do constrangimento (a ameaça de paralisação de servidores, juízes e procuradores),em protesto contra a proposta oficial de reforma da Previdência.

Como diria Strindberg, “seria cômico se não fosse trágico!”

Numa espécie de prêmio de consolação pelo adiamento do espetáculo, o governo gaba-se da criação do microcrédito (uma esmola para a legião de brasileiros que “vegetam” na informalidade), das deflações nos preços de alguns produtos (como se isso não tivesse sido conseguido às custas de privação de consumo, que significa queda nas vendas do comércio e da indústria, e na arrecadação de ICMS e de IPI, dentre outros impostos).

Recentemente, o ministro do Trabalho, Jacques Wagner, tentou tranqüilizar a mídia, assustada com as altas taxas de desemprego, registradas nas regiões metropolitanas, com o argumento de que fora delas, ou seja, nas cidades pequenas e médias e no campo, o emprego estava crescendo. Ora, ele sabe muito bem, como todos nós, que a maioria da população brasileira está concentrada justamente naquelas regiões.

A mais recente “boa” notícia do governo foi o corte de um ponto percentual e meio na taxa básica de juro, que hoje é de 24,5% ao ano. Na visão otimista do governo, essa redução permitiria um pequeno crescimento no último trimestre do ano. Na verdade, segundo informou o Financial Times, de acordo com dados consolidados relativos ao primeiro semestre, a economia brasileira já está tecnicamente em recessão.

Mais dois outros dados são preocupantes: o superávit comercial, que ultrapassou os US$ 10 bilhões no primeiro semestre, está em queda, devido ao câmbio menos favorável às exportações; e a entrada de investimento estrangeiro no País caiu, em julho, para níveis próximos aos registrados na crise cambial de meados de 2002.

E é nesse contexto que servidores, juízes e procuradores ameaçam fazer greve. Com isso, eles estarão aumentando ainda mais aquilo que investidores estrangeiros chamam de insegurança jurídica, uma das faces menos conhecidas do famoso custo Brasil.

O governo e seus aliados não podem mais esperar o momento mágico em que, de repente, por uma combinação de fatores positivos, possam, enfim, exibir o “espetáculo do crescimento”. Os desafios a enfrentar são enormes e a demora tende a deixá-los fora de controle.

Enquanto espera o melhor momento para lançar um programa coordenado de retomada do desenvolvimento, o governo deveria abrir frentes de trabalho, por exemplo, para recuperar a extensa malha rodoviária federal. Como há obras a tocar em todos os Estados e regiões do País, os trabalhadores seriam recrutados nos locais em que vivem, evitando-se grandes deslocamentos.

Com tal política de emergência, diminuiria bastante o desemprego nas regiões metropolitanas. Mais do que isso: reduzir-se-iam as pressões do MST e dos sem-teto das cidades, já que muitas dessas pessoas engajadas nesses movimentos seriam aproveitadas nas frentes de trabalho.

Os efeitos de uma política emergencial de geração de empregos seriam rapidamente ampliados em razão da conjugação de esforços na área social, na qual há diversos programas assistenciais, dentre eles, o Fome Zero e o de renda mínima, e outros mais consistentes como alfabetização de adultos operados em conjunto com prefeituras e governos estaduais.

Em 1995, o ex-governador Mário Covas lançou em São Paulo, com resultados excelentes, um programa semelhante de frentes de trabalho. Portanto, as soluções existem. Que tal implementá-las imediatamente?

O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - Fenadvb.