08 de julho de 2026
Cultura

Belo recomeço

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Talvez Nando Reis nunca deixe de ser lembrado como um ex-integrante dos Titãs, mas não restam dúvidas de que a cada dia que passa o músico, compositor e cantor é cada vez mais apenas Nando Reis, o que está longe de ser pouco. O lançamento de “A Letra A”, seu primeiro disco após a saída do grupo, onde tocou, compôs e cantou por 20 anos, marca o começo com o pé direito de uma nova fase em sua vida.

O álbum foi muito bem recebido pela crítica e pelo público, que tem prestigiado em peso as apresentações do cantor pelo País. “Dentro do Mesmo Time” - a primeira música de trabalho do CD - está rolando solta nas rádios e sua agenda anda lotada.

Ontem, se apresentou no DirectTV Hall, na Capital, hoje, mostra o repertório de “A Letra A” em Bauru no ginásio do Sesc, a partir das 21h, numa apresentação pela Mostra Latinidades na qual dividirá o palco com Fito Paez. Amanhã, volta para São Paulo, toca às 18h com os Paralamas no Ibirapuera e volta a se apresentar ao lado de Paez, às 21h, no Sesc Santo André.

Por telefone, Reis concedeu uma entrevista exclusiva ao JC anteontem, na qual fala sobre o disco e a nova fase da sua carreira. A seguir, os melhores trechos.

Jornal da Cidade - “A Letra A” é um disco que tem a sua mão em todos os lugares, de cada detalhe sonoro ao visual. Ele ficou perfeito, do jeito que você queria? Nando Reis - Um disco nunca fica perfeito. Ainda bem. Essa relação de perfeição pretende uma satisfação que ninguém encontra em nenhum lugar da vida. Eu acho que ele ficou muito fiel a o que eu sou e eu tenho imperfeições. Eu gosto disso nele. Eu acho que ele tem qualidades que eu pude desenvolver mais através da minha experiência, então eu acho ele melhor, eu gosto dos arranjos, das músicas, acho que estou cantando bem. Ele tem o retrato de quem eu sou e era isso que eu queria. O disco tem bastante o meu dedo mas não é porque eu seja controlador, mas no início do processo que é esse meu de mudança, de desligamento de uma banda e de reunião de todos os aspectos do meu trabalho ao redor só do meu nome, era fundamental que ele tivesse a pessoalidade que tem o meu trabalho. Nesse ponto, eu faço questão que apareça na capa, no site, no cenário do show, uma demonstração do que eu gosto, do que eu penso.

JC - Esse é seu melhor disco? Reis - ... Eu acho. Eu gosto muito do “Para Quando (o Arco-Íris Encontrar o Pote de Ouro”) também, acho um disco maravilhoso. Mas eu gosto mais desse. Acho que cada um tem o seu momento. O curioso é que eu consigo tocar muitas músicas do “Para Quando...” no show, a gente tem afinidade. Mas a minha maneira de trabalhar agora está mais calma, eu sei melhor o que eu gosto e, com os músicos, agora os conheço melhor. É o terceiro disco que faço com o Barrett (Martin, baterista) e com o Alex (Veley, tecladista) e este é o terceiro ano que eu estou tocando com o Pontual (Carlos, guitarrista), então a gente tem um entendimento bom, uma sonoridade que você pode dizer: “É o Nando!”

JC - Você esperava a boa recepção do disco, a agenda lotada. Como é fazer tantos shows em lugares diferentes? Reis - Eu fico feliz porque é isso que me ocupa, que eu gosto e preciso fazer. É claro que eu tratei o trabalho de uma maneira diferente porque ele é a construção de um lugar. Agora tenho uma possibilidade diferente do que tinha com os Titãs, que é uma banda consagrada. Posso me apresentar em lugares pequenos e em festivais grandes. Oscila muito mas me adapto. Mas não posso dizer que tinha uma expectativa porque tenho 20 anos de carreira, não sou mais ingênuo. Mas fico satisfeito.

JC - Você gravou músicas antigas, que já tinham sido gravadas por outros cantores e grupos e mesclou composições novas. Você quis fazer um resgate do que ainda não havia gravado e depois completou o disco? Reis - Foi exatamente assim, porque quando eu saí dos Titãs, eu não tinha a data do meu disco marcada, não tava exatamente compondo para ele. Eu tinha músicas e o disco é um reflexo das músicas que eu vinha armazenando. Eu fiz uma opção de não compor nos meses anteriores para me dedicar ao disco da Cássia (“Dez de Dezembro”, lançando em 2002), que me ocupou muito de uma maneira absorvente, emocionante, e depois eu fui fazendo shows. Então quando eu entrei em estúdio o que eu tinha em mente era a banda, a sonoridade, queria que fosse um disco bem tocado, bem gravado e ao mesmo tempo simples. De certa maneira como ele está soando. Nesse ponto ele atende as minhas expectativas. Peguei as músicas que eu já sabia que queria gravar como “Luz dos Olhos” e “Tudo Mais”. “Mesmo Sozinho” também, porque ela ficou no limbo (a música já havia sido gravada pelos Titãs). Mas depois fiz outras músicas. “A Letra A” eu queria colocar como título do disco, então resolvi fazer uma música com esse nome.

JC - Para marcar o recomeço? Reis - É, para mim é isso. A letra A tem o sentido do início de uma nova etapa da minha vida e, ao mesmo tempo, o traço da letra A em si eu acho forte, simétrico. Tem a ver com o conteúdo do disco. Sabe o artigo definido feminino? Eu acho que isso é o que basicamente tem no disco inteiro. Eu tenho uma maneira de colocar, de fazer as músicas como se eu tivesse me dirigindo para alguém, e esse alguém é sempre uma figura feminina. A letra A é a quem eu me dirijo, a quem eu falo. Quando eu fiz a música tinha certeza que era a música para abrir o disco.

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Integração latina

A Mostra Sesc de Arte - Latinidades, que o Sesc São Paulo realiza de 26 de agosto a 14 de setembro em diversas cidades do Interior do Estado, pretende fazer com que o público se aproxime e conheça a cultura de outros países latinos - das Américas e da Europa - que, apesar de cheios de semelhanças, pouco se conhecem.

A proposta da mostra, segundo a direção da entidade, é também refletir sobre a existência, evolução e transformações da identidade latina, presente em países com grande diversidade cultural, tão parecidos entre si e, ao mesmo tempo, únicos.

Em Bauru, a programação terá hoje com show de Nando Reis e Fito Paez. No dia 9 de setembro, será realizado o programa da Mostra Sesc de Artes, com espetáculos de teatro (Brasil), música (Romênia), dança (Brasil) e performances de artes visuais (Bolívia), que depois seguirá para as cidades de Ourinhos, Palmital, Assis, Marília e Tupã.

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Pop star argentino

Rodolfo “Fito” Paez nasceu em Rosario, na Argentina, em 13 de março de 1963. Aos 13 anos formou sua primeira banda, a Staff, e alguns anos depois passou a se apresentar em casas noturnas locais.

Atualmente, acumula as carreiras de músico, cantor, compositor, escritor, roteirista e cineasta. Em sua terra natal, a Argentina, o artista tem status de estrela absoluta e goza de grande prestígio entre os fãs, apesar de ter a crítica constantemente no seu encalço. Seu primeiro disco, “Del’63", foi lançado em 1984, e a ele se seguiram outros 11, fora projetos paralelos. Seu último disco, “Naturaleza Sangre”, foi lançado este ano e deve ser a base do seu show hoje no Sesc.

Paez já se apresentou ao lado de Sting, já gravou com os Paralamas do Sucesso e com os Titãs, além de ter conquistado dois Grammy Latinos em 2002 nas categorias Melhor Intérprete e Melhor Música de Rock.

No cinema, em que já atuou como ator e compositor, estreou na direção de longas em 2002, com “Vidas Privadas”. O filme, traz sua esposa, Cecilia Roth (de “Tudo Sobre Minha Mãe”, de Almodóvar) como estrela principal e trata das conseqüências da ditadura Argentina na vida de pessoas comuns.