08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O poeta e o prefeito


| Tempo de leitura: 4 min

Filho do saudoso poeta, escritor e autor teatral bauruense Martinho de Abreu Carvalho, sempre procurei cultivar a amizade daqueles que lhe eram caros. Assim sendo, conheci pessoas honradas e de caráter, as quais muito me honram com sua amizade. Lembro-me que, numa tarde, após uma solicitação minha, fui até a presença do então diretor do Jornal da Cidade, o dr. Nilson Ferreira Costa. Era final de expediente e, quando cheguei à sua sala, notei que estava superocupado e apressado na tarefa de organizar uma verdadeira infinidade de pastas, recortes e demais papéis.

Já estava quase pedindo desculpas e dizendo que voltaria num outro dia, quando ele pediu que o desculpasse pela “correria” e esperasse que já iria falar comigo. Após alguns instantes de espera, sentou-se e então eu pude conhecer, pessoalmente, mais um dos amigos de meu pai.

Ouvi as palavras de alguém que eu definiria como sendo as experiências e constatações de um jovem a quem o mundo, a vida e a força da classe dominante haviam envelhecido... Um ferroviário idealista, cheio de garra e capacidade de luta em prol de sua classe que se viu, de repente, perseguido e acusado de ser revolucionário, chegando a quase perder seu diploma de advogado.

Eram os obscuros tempos da ditadura, da repressão, das perseguições e dos assassinos de sonhos e esperanças... tempos que Renato Russo chamaria de “dias desleais...” Tudo isso já fazia parte de um passado distante, mas o amargor de suas palavras, o brilho sem brilho de seus olhos, as palavras narradas pausadamente revelavam que ainda não havia “engolido” a pressão desumana da arbitrariedade e da opressão dos mais fortes. Não tive dúvidas. Nilson Costa ainda estava triste. E estando triste, não estava conformado, e não estando conformado, ainda não estava batido.

Tudo bem que, hoje, cumpriu com eficiência, responsabilidade e brilhantismo sua missão de administrador, frente ao J. C. mas, e o Nilson idealista, que sempre soube que podia dar mais de si, nesta Bauru que nós amamos tanto?

Trata-se do mesmo Nilson que aí está, desta feita sendo ridicularizado com a suspeita de envolvimento pessoal em desvio de dinheiro destinado à merenda escolar... Afastou pessoas que não teriam merecido sua confiança, mas ainda não estava bom... Explicou, detalhou, acreditando mais uma vez na justiça dos homens e ainda não estava bom... Providenciou para que o produto chegasse, provando que o mesmo existia, mas não estava bom... Explicou e exigiu explicações de seus funcionários mas, mais uma vez pareceu-lhe ouvir: “Não adianta, nós queremos mesmo é a sua cabeça!”

E assim, num total desrespeito para com o expressivo número de eleitores que o elegeu, uma avalanche de críticas e cobranças foi somando-se à situação. Uma das principais foi a dos buracos e do estado do asfalto de Bauru. Analisemos, pois, essas cobranças. Apesar de ser fato conhecido, os técnicos explicaram os problemas de nossas ruas, como a idade do asfalto, o não recapeamento feito pela maioria dos prefeitos que se sucederam, as chuvas que excepcionalmente caíram continuadamente e por um longo período... Foi feito o possível e o impossível, mas todas as falhas e displicências de outras administrações pareciam mesmo estarem destinadas a desabar sobre suas costas. Mega operação, asfaltos, trégua da crítica e depois... mais chuvas...

Não estou aqui, como já estão pensando, tentando provar a inocência ou a culpa de ninguém. Peço apenas a todos os que aqui residem, que reflitam nesses acontecimentos e tomem uma posição. O que estará acontecendo com nossa querida Bauru? Será que para se eleger um prefeito a população se desloca até as urnas e, para que esse mesmo prefeito seja “cassado” basta um de seus secretários agir de maneira incorreta? Assim tem sido em nosso país? Qual é a linha que sutilmente separa as palavras “ ideologia política” e “expansão de domínio”?

Não sou funcionário municipal, não pretendo ser... Quase nem tenho relacionamento com o nosso prefeito. Apenas o respeito em seus direitos de prefeito eleito democraticamente. Assim sendo, procuro modestamente contribuir para o restabelecimento da imagem e do crédito de nossa Bauru, além de colaborar para que nossa cidade não venha a cometer um crime contra a própria instituição democrática. Para aqueles que surgirão, como sempre surgem, chamando-me de ingênuo ou desconhecedor de causa, eu respondo que posso não conhecer esses misteriosos detalhes, mas afirmo que conheço o caráter do amigo jornalista Nilson Costa. (Carlos Abreu Carvalho - RG 8.087.263-3)