07 de julho de 2026
Geral

Mania de comprar pode virar doença

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Em países capitalistas, consumir é praticamente uma obrigação social – sem isso, não haveria emprego, nem dinheiro para a população. Porém, quando o ato de comprar é resultado de um desejo incontrolável, o que deveria ser um simples hábito se transforma em doença: a compulsão. A pessoa passa a adquirir coisas como uma alternativa distorcida de obter prazer.

A psiquiatra Elaine Oliveira afirma que não há estatísticas sobre a doença, mas ela garante que o distúrbio é mais freqüente do que se imagina. “A sociedade ocidental substituiu valores essenciais (dignidade, caráter, moral) por valores materiais. A importância que você tem na sociedade depende do que se tem e não do que você é. Isso denota uma superficialidade na existência da pessoa”, comenta.

Segundo ela, ao invés de se buscar algo que dê satisfação verdadeira e duradoura, as pessoas têm procurado prazeres mais imediatos, só que elas só encontram isso em situações momentâneas e superficiais. “É o que acontece na compulsão pelo consumo. O indivíduo quer muito uma coisa. Assim que ele assina o cheque, o prazer acaba. Por isso a necessidade de repetição, ele sempre vai querer algo mais”, ressalta.

A psiquiatra explica que a compulsão pode ser causada por diversos fatores. “Pode ser resultado de uma simples desorganização emocional (um momento de infelicidade, um desgosto), mas também pode ser sintoma de distúrbios psiquiátricos graves, como o transtorno bipolar ou a falta de controle dos impulsos”, explica.

O transtorno bipolar é uma alteração psiquiátrica que leva a pessoa a apresentar alterações repentinas e severas de humor. Ela pode passar de um estado depressivo para a euforia em segundos, sem nenhuma causa aparente. Uma das características deste transtorno é a fase maníaca, em que a excitação leva o doente a experimentar compulsões.

“Uma delas é pelo comprar, que é bastante comum. Quando a doença é mais grave, a pessoa chega a ter delírios de grandeza. Ela acredita que é rica, que vai receber uma herança milionária e começa a se comportar como se realmente fosse. É muito comum a pessoa sair de concessionária em concessionária comprando carros importados, jóias, roupas caríssimas. Nesse caso, a compulsão é sintoma grave de doença desestruturante”, afirma Oliveira.

O consumo descontrolado também pode ser conseqüência do transtorno da falta de controle sobre os impulsos. Segundo a médica, esse distúrbio costuma ser muito grave e pode afetar o comportamento do indivíduo em diversos setores.

“Sair comprando tudo o que vê é apenas um deles, mas a pessoa pode ter compulsão por comida, por sexo, pode ter um ciúme patológico ou qualquer outra coisa. São pessoas hiper-reativas – diante de um problema, elas tanto podem apresentar reações depressivas, como atitudes agressivas. Quando o impulso, o desejo surge, a pessoa fica extremamente tensa e só consegue alívio quando parte para a ação”, observa.

A psiquiatra ressalta que atitudes compulsivas são tentativas inadequadas de se obter gratificações, recompensas, alívio. No entanto, o resultado é algo irreal. “A pessoa busca nos bens - coisas externas - uma ‘cura’ para uma dor que está dentro dela, que é subjetiva. Ela acha que isso vai desaparecer quando ela conseguir o carro, a casa, as roupas. Mas quando sai da loja, aquilo se esvazia e ela passa a desejar outra coisa”, destaca.

Como identificar

De acordo com a psiquiatra, na imensa maioria dos casos, é a família que percebe a doença. Quando a compulsão tem origem no transtorno bipolar, o doente apresenta mudanças extremamente marcantes em seu comportamento. Na fase eufórica, a pessoa apresenta uma disposição muito além do normal, ela se mostra muito feliz, sente-se absolutamente capaz para qualquer coisa e tudo se torna exagerado.

“Ela muda até seu jeito de vestir, passa a usar roupas mais extravagantes – para se exibir mesmo -, começa a falar muito mais que o de costume, geralmente apresenta exaltação sexual, tudo fica exagerado. Junto com isso, ela começa a aparecer com muitas sacolas, roupas caras, objetos sofisticados, jóias – coisas que estão totalmente fora do padrão financeiro daquela família”, descreve.

Em pouco tempo, o compulsivo está cercado de carnês e dívidas. Cobradores começam a aparecer, gerentes de banco telefonam para reclamar de contas negativas, cartões de crédito e emissões de cheques são suspensas, os valores são cobrados na Justiça.

“Algumas vezes, é aí que a pessoa ou a família se dão conta de que a situação fugiu ao controle e é aí que se busca ajuda para tratar. E a gente trata não só para cortar uma crise, como também para prevenir outras”, observa.