O funcionário público despreocupado com a qualidade do serviço que presta à população está com os dias contados. A afirmação é defendida por pessoas que atuam na área, entre elas os próprios sindicalistas. A exigência de se atender cada vez melhor e a concorrência acirrada pelas vagas oferecidas nos concursos públicos são algumas das causas apontadas para indicar a extinção dos servidores acomodados.
“Se a própria área pública não se movimentar e sair do estágio de acomodação que existe em alguns setores, ela vai desaparecer, pois a resposta que a comunidade exige é muito maior do que era no passado”, opina o professor de recursos humanos do curso de administração da Instituição Toledo de Ensino (ITE), José Munhoz Fernandes.
Para ele, o papel do funcionário dentro dessa nova realidade é fundamental. “O perfil ideal do servidor público é aquele que seja comprometido com a organização em que trabalha. Estamos vendo algumas alterações, já há algum tempo, no sentido de se exigir uma mudança radical de comportamento para que tenhamos mais rapidez e eficiência por parte dele”, afirma.
Fernandes também é administrador universitário da área de recursos humanos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e desenvolve, no câmpus de Bauru, um sistema de avaliação funcional implantado pela instituição em todas as suas unidades. O objetivo principal é valorizar o funcionário público que contribui para a melhoria do setor em que trabalha.
O secretário municipal da Administração, José Angelo Padovan, acredita que a procura pelos concursos públicos também contribui para a queda do número de trabalhadores despreocupados com os serviços que prestam. “A concorrência é muito grande e a seleção natural vai existir. A imagem do acomodado vai se deteriorar ao longo do tempo por causa da melhoria na qualificação dos aprovados”, diz.
O secretário-geral do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco) de Bauru, José Aparecido Pereira, concorda. “Quanto mais disputado é um concurso, menos chances vão ter os aproveitadores. Esses não se esforçam nunca e os que querem realmente trabalhar vão tomar o lugar deles, pois ficarão melhor classificados. Cada vez menos entrarão pessoas acomodadas. É a tendência natural”, prevê.
Poupa Tempo
A principal aposta do governo estadual para melhorar o atendimento ao público é o Programa Poupatempo, implantado em 1997 e que tem como característica oferecer vários serviços em um mesmo espaço. Atualmente, são oito unidades, sendo quatro na Capital e as demais em Guarulhos, Campinas, São José dos Campos e São Bernardo do Campo.
O superintendente do projeto, Daniel Annenberg, diz que o servidor acomodado não tem espaço nesse sistema. “Ou ele se recicla e se modifica, ou é provável que desapareça. E não é só o acomodado, mas também aquele que só faz um tipo de serviço. Vamos deixar de tê-lo”, diz.
Annenberg revela que há estudos para a implantação de um posto do Poupatempo no município, mas ainda não há um prazo determinado para que isso ocorra. “Bauru é um importante centro de região administrativa. O grande problema é a falta de recursos do Estado, com a queda de arrecadação, o que dificulta essa implementação”, declara.
Para o superintendente, a melhoria do atendimento nos órgãos públicos está diretamente ligada à evolução do consumidor. “Antes, não dava muito para as pessoas criticarem ou sugerirem. Na medida em que você vai consolidando o regime democrático, elas se manifestam muito mais, principalmente quando não estão satisfeitas”, opina.
Ele afirma que a mudança também é motivada pela iniciativa privada. “Houve um ‘boom’ dos serviços de atendimento ao cliente oferecidos por esse setor. Isso fez com que o cidadão passasse a exigir mais os seus direitos frente aos produtos. Se pago impostos, tenho direito a ser tratado com respeito, simpatia e comodidade. No setor público, isso está chegando agora”, diz.
Apesar do consenso em torno da necessidade de aprimoramento do serviço público, na prática a alteração nem sempre atinge a todos os funcionários públicos. Recentemente, o Jornal da Cidade publicou uma reportagem mostrando a insatisfação dos usuários do Pronto-Socorro Municipal com relação ao atendimento prestado por alguns servidores.
Na época, o secretário municipal da Saúde, Hanna Georges Saab, solicitou a elaboração de uma lista que pudesse indicar quem seriam esses maus funcionários.
Valorização
Para o secretário-geral do Unafisco, a qualidade do trabalho também depende da valorização profissional. “Onde isso ocorre, o serviço é melhor. O funcionário precisa ser freqüentemente treinado, adequadamente remunerado e ter atrativos”, declara José Aparecido Pereira.
A opinião é compartilhada pela diretora do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Bauru e Região (Sinserm), Sônia Carvalho. “O funcionário é pouco valorizado pelas administrações e recebe um salário muito baixo pela importância do serviço que presta”, diz.
Para ela, o atendimento seria melhor se houvessem mais funcionários. “Existem locais em que os servidores estão sobrecarregados. Os que atendem diretamente ao público são muito sacrificados, porque batem de frente com a população, que também tem razão. Ela vai em busca de atendimento e não recebe da maneira que deveria”, afirma.
O secretário municipal da Administração reconhece a carência de pessoal. “O que a gente vê é uma quantidade de funcionários abaixo do ideal, com pessoas se desdobrando. Você vê gente trabalhando fora do horário, fazendo um esforço para suprir essa lacuna. É muito mais difícil você contratar no serviço público do que no privado”, declara José Angelo Padovan.
Ele lembra, porém, que há restrições para solucionar o problema. “A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) limita muito. Há cidades que possuem uma arrecadção maior e que podem contratar mais. Bauru, por exemplo, não pode, porque a arrecadação é pequena. É um processo difícil de contornar”. A prefeitura conta, atualmente, com cerca de 5,5 mil servidores.