11 de julho de 2026
Saúde

Pioneirismo: Brasil investe em reabilitação

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Paralelamente às ações de prevenção e tratamento, o Ministério da Saúde brasileiro tem atuado numa nova frente de trabalho: a reabilitação de pessoas que tenham ficado incapacitadas ou semi-incapacitadas em razão de doenças como a hanseníase. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a iniciativa é pioneira em todo o mundo.

A assessora técnica da Divisão de Dermatologia do Ministério da Saúde, Maria Bernadete Rocha Moreira afirma que o Brasil tem reformulado suas ações de controle dessas doenças que levam a deformidades desde 1985. Mas até há poucos anos, esses programas baseavam-se no tratamento das doenças e na prevenção da incapacidade.

“Porém, muitos pacientes nos procuram com a incapacidade já instalada ou não seguem as orientações adequadamente e acabam desenvolvendo a incapacidade durante o tratamento. O Ministério da Saúde resolveu criar um plano para esse público e, desde o ano 2000, está promovendo cursos nacionais voltados à reabilitação”, explica.

Como parte deste Plano Nacional de Reabilitação, o Instituto Lauro de Souza Lima de Bauru (centro de referência em pesquisa e tratamento da hanseníase) acaba de sediar o 1.º Curso Nacional de Avaliação do Pé, Adaptações de Calçados e Órteses Simples, encerrado esta semana.

“O objetivo deste curso é capacitar os profissionais para identificar alterações que representem risco de futuras lesões para os pés do paciente, prescrever cirurgias ou recursos ortopédicos que minimizem estas alterações e até mesmo confeccionar as órteses (palmilhas), quando necessário”, explica a fisioterapeuta e pesquisadora do instituto, Rosemari Baccarelli.

Segundo ela, cerca de 20 profissionais vindos de nove Estados brasileiros participaram do evento, que durou duas semanas e foi ministrado pelo podiatra inglês Hugh Cross. “Ele é consultor em prevenção de incapacidades de uma organização chamada American Leprosy Mission, que atua na Ásia, e leva esse treinamento pelo mundo todo”, salienta.

A preocupação com os pés se justifica porque doenças como a hanseníase e o diabetes podem alterar a sensibilidade que protege o ser humano de machucados. Então, a pessoa pode pisar num prego, por exemplo, e continuar caminhando normalmente sem sentir nada.

Baccarelli destaca que o maior problema desta insensibilidade são as lesões de longo prazo. A pessoa usa um sapato apertado ou pisa errado ao caminhar. Como não sente dor, ela insiste na postura errada e acaba desenvolvendo calos, joanetes ou outras deformidades mais graves. Em alguns casos, a lesão pode levar até à amputação de membros.

Então, o curso pretendia capacitar os profissionais tanto para avaliar o pé dos pacientes em busca de alterações que representem risco de lesões, como para desenvolver alternativas ortopédicas que tragam alívio à pessoa.

“Por isso, pela primeira vez, além dos profissionais de saúde, o curso também contou com a participação de sapateiros. “Porque são eles que vão fazer o calçado. Eles não vão examinar o paciente, mas precisam saber interpretar uma prescrição médica e adaptar o calçado que o paciente tem”, completa a assessora técnica do Ministério da Saúde.

Ela informa que, além dos cursos, o governo também editou manuais de orientação que estão sendo distribuídos junto a profissionais de saúde.

“Nossa intenção é que cada participante se transforme num multiplicador desses conhecimentos para outros profissionais. Estamos trabalhando, mas a implantação do plano em todo o País é lenta, porque sai da esfera da atenção básica em saúde e isso exige investimentos muito altos”, pondera.

Segundo Monteiro, ao saber sobre o Plano Nacional de Reabilitação brasileiro, organizações internacionais informam tratar-se de iniciativa pioneira. “Elas dizem que outros países trabalham muito com a prevenção, mas esse treinamento voltado para a reabilitação é inédito”, comemora.