08 de julho de 2026
Articulistas

Iraque ocupado e a ONU descompassada


| Tempo de leitura: 3 min

A ONU se faz presente no Iraque desde o dia 3 de maio, mas não mudou nada e os Estados Unidos continuam impondo seu ritmo de trabalho, nada adequado para a cultura iraquiana. Há um mês fiz um crítica na imprensa referente à nomeação feita pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annam, do alto Comissário dos Direitos Humanos da ONU, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, para o governo transitório do Iraque. Vieira, quando também fez o governo de transição do Timor-Leste (1999-2002), não conseguiu cumprir nem a metade das coisas que prometeu aos políticos daquele país, sendo chamado várias vezes de “ditador benevolente”. Nas atuais circunstâncias, no que tange à administração do Iraque, o que se vê apenas é que as metas não foram cumpridas e por insegurança tivemos, no último dia 19 de agosto, um assassinato contra Sérgio Vieira. Temos com nitidez que as Nações Unidas, com seu time de burocratas, não conseguem manter uma certa autonomia administrativa, referente às grandes potências militares do globo terrestre.

Ruim com a ONU, pior sem ela! Quando veremos uma organização mundial séria que realmente represente a conclamação dos povos e dos seus chefes de Estado, que são suprimidos pela economia e pela força militar de outras nações? O poder bélico cala as reivindicações de muitos líderes de organismos internacionais. Mais curioso é que toda movimentação de exércitos, provocada pela ocupação das tropas anglo-americana nas terras do ex-ditador Saddam Hussein, não conseguiram provar nada até os dias de hoje que existiam lá laboratórios da armas químicas. Os EUA estão sendo tão ousados que, debaixo das barbas das Nações Unidas, já contrataram uma empresa do seu próprio país, a Vinnell, para criar um novo contingente militar no Iraque. A companhia já começou a treinar novos recrutas. A contratada deverá receber em torno US$ 48 milhões até o final de 2004, pelo serviço prestado. Por que não se financiam Exércitos de outros países ou força de segurança interna para proteger as terras iraquianas? Todos esses pontos estão mal resolvidos, e os atuais administradores do Iraque não questionam publicamente a imposição de Paul Brener, sendo a maior autoridade dos americanos no país. Sem cumprir suas metas, a ONU vem perdendo cada dia mais o crédito da comunidade política internacional. Devemos levar em conta que Sérgio Vieira de Mello sempre serviu as Nações Unidas em países com bacias petrolíferas importantes. Será que é uma mera coincidência? Timor-Leste é um exemplo disso, pois tem uma das 20 maiores bacias petrolíferas do mundo. Quando lá esteve só beneficiou superpotências mundiais, como a Austrália, que vem explorando petróleo que pertence ao povo timorense.

No caso do Iraque, quando que seu povo será beneficiado pelo petróleo que lá está? Tudo é uma grande incógnita. E o impostos da venda do petróleo deveriam ser revertidos imediatamente ao seu povo, que está passando muitas necessidades depois de ter vivido uma grande guerra que deixou rastros de destruição por todo canto. A ONU deve ser rediscutida e reorganizada, pois dela o mundo precisa, mas não da forma como está. Apenas serve para proteger grandes países, deixando os demais ficarem à mercê do capital internacional. Seu quadro de funcionários precisa ser adequado à nova realidade, para que não fique fora do compasso do desenvolvimento humano.

Enfim, suas decisões são reflexos dos seus diplomatas arrogantes e egoístas, na sua grande maioria. Os povos das nações pobres não merecem tratamentos tão desiguais das políticas internacionais e a diplomacia mundial não pode sofrer atentados como de Sérgio Vieria. A democracia condena ações terroristas, mas toda ação tem uma reação e o diplomata brasileiro foi o alvo, desta vez.

O autor, Arthur Conceição, é formando em Ciências Políticas. Trabalhou durante dois meses e meio num período de dezembro 2002 a fevereiro de 2003 em Timor-Leste.