Ninguém sabe quem inventou o esporte. Talvez tenha sido Adão quando saltou para apanhar a maçã e, assim, seduzir a Eva. Mas, hoje, todos sabem que o esporte, além de salutar ao ser humano, é um agente importantíssimo nas relações entre nações e fonte inesgotável de inúmeros negócios. Os Jogos Pan-Americanos foram criados em 1940 baseados nos Jogos Olímpicos (Olimpíadas) que, por sua vez, foram criados em 1896 pelo educador francês Pierre de Coubertin. A primeira edição do Pan, devido a II Grande Guerra, só foi realizada em1951, em Buenos Aires. Em 1963, a quarta edição dos Pan foi em São Paulo. Dada a similaridade das competições, o Pan funciona como uma espécie de “treino” para as Olimpíadas dois anos antes das mesmas.
A filosofia “men sana in corpore sano”, inspiradora desses jogos, perdeu espaço ao longo do tempo para a exploração política de seus resultados. Nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, Hitler se recusou entregar ao atleta norte-americano, negro, Jesse Owens, as quatro medalhas de ouro que ele havia conquistado. Hitler pregava a supremacia da raça ariana sobre todas as outras.
A disputa entre capitalismo e comunismo, na chamada “Guerra Fria”, envolveu esses jogos durante décadas. A briga saía da área econômico-social para a arena esportiva, onde se digladiavam Estados Unidos e União Soviética. Nos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, os Estados Unidos lideraram o boicote de 62 países em protesto a invasão do Afeganistão pelos soviéticos. Em 1984, nas Olimpíadas de Los Angeles, os países socialistas liderados pela União Soviética deram o troco aos norte-americanos com novo boicote. No Pan-Americano, a refrega ideológico-esportiva se dá entre Estados Unidos e Cuba e já foi mais acirrada, hoje arrefeceu.
Com a queda do muro de Berlim, a política ideológica que envolvia as Olimpíadas e o Pan e neles estava embutida há 60 anos, cedeu lugar aos “negócios do esporte”. Eles, hoje, envolvem bilhões de dólares com empresas investindo somas fantásticas na busca de identificar seus produtos com aquilo que o esporte tem de positivo, juventude e vigor.
As disputas esportivas mundiais ou continentais são vitrines que ocupam intermináveis espaços na mídia estimulando os aficionados das coisas do esporte (notícias, roupas, perfumes, vitaminas, remédios, carros, etc) a consumi-las. São bilhões de pessoas gerando bilhões de dólares em negócios. Hoje, existem jornais, rádios e televisões exclusivos do esporte. Milhares de postos de trabalho são gerados pelos negócios esportivos.
O governo brasileiro, nos últimos anos, começou a acordar para o que representa o esporte como instrumento de promoção humana (o mais importante), afirmação de cidadania, principalmente para as classes mais pobres, e atividade econômica. No último Pan, o Brasil conquistou 122 medalhas (28 de ouro, 40 de prata e 54 de bronze) superando a sua melhor marca, 101 em Winnipeg (1999). Quase chegamos em terceiro, e é pouco para um país com o nosso potencial. Mas, o grande triunfo que as medalhas do Pan propiciam, é reforçar a convicção que o caminho das vitórias necessita ser pavimentado por uma política de governo que envolva planejamento e recursos. Vale a pena investir recursos públicos nessa área pois os reflexos no campo social são imensos. Quanto mais esportistas menos bandidos ou traficantes de drogas. Este espaço final é para cumprimentar o Mário Sabino, Barbosa e o Murilo. Nossos medalhistas caingangues no Pan. Parabéns!
O autor, Tidei de Lima é engenheiro-civil, ex-deputado federal, ex-Secretário da Agricultura do Estado e ex-prefeito de Bauru.