Botucatu – Uma pesquisa inédita desenvolvida pela Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu (100 quilômetros a Sudeste de Bauru) vai realizar um levantamento da distribuição espacial e das causas de mortes na cidade, registradas nos últimos 13 anos.
O projeto, coordenado pelo professor Ricardo Cordeiro, chefe do Departamento de Saúde Pública da Unesp, está sendo realizado no recém-inaugurado Laboratório de Geoprocessamento da faculdade.
Segundo Cordeiro, o trabalho, que teve início há cerca de três meses, deve ser concluído até novembro. Inicialmente, foi viabilizado um banco de dados com a quantidade, o local e as causas das mortes registradas na cidade de 1990 a 2002. Nos primeiros dois meses, a pesquisa catalogou cerca de 8 mil óbitos. Esse levantamento traz dados detalhados, como a idade, sexo, o endereço da vítima e o local de registro da morte. “Com esses dados nós estamos pegando cada um desses óbitos e marcando no mapa onde eles ocorreram.”
Aliando essa base de dados digitalizada e os recursos de geoprocessamento, estão sendo construídas demonstrações gráficas da distribuição espacial de eventos relacionados aos processos de adoecimento. Com isso, poderão ser localizados pontos críticos, como o bairro, vila ou rua de maior incidência de mortes provocadas por determinada doença; pontos de poluição ambiental e concentração de moléstias prejudiciais ao homem, entre outros problemas.
Na etapa final, o estudo também produzirá imagens gráficas referentes a cada ano, que permitirão visualizar as mudanças do padrão de mortalidade por violência na cidade. O resultado da pesquisa deverá ser disponibilizado em um site na Internet.
O projeto conta com a participação de cerca de 20 pessoas, entre professores e alunos da faculdade.
Prevenção
O professor esclarece que o objetivo principal do trabalho é promover a saúde pública. A partir dos resultados será possível estabelecer políticas de prevenção no município, diminuindo inclusive a incidência de mortes evitáveis.
“Não se trata apenas em marcar no local do mapa onde ocorreu, mas além disso nós estamos estudando se existem aglomerados de óbitos, que tipo de aglomerados são esses, por que eles existem em tais lugares e quais são as explicações para sua formação.”
Dentro dessa proposta, Cordeiro explica que o mapeamento poderá também indicar áreas que ofereçam algum risco à saúde, detectando, por exemplo, a ocorrência de tipos de câncer, que estariam diretamente relacionados a exposições ambientais desfavoráveis. “Tendo a localização dessas ocorrências fica mais fácil de suspeitar das causas e ir atrás para fazer prevenção.”
Inédito
Cordeiro afirma que desconhece no País algum laboratório de geoprocessamento que realize um trabalho dessa natureza relacionado a área da saúde.
Para o desenvolvimento do projeto, integrantes da equipe fizeram um curso no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e aprenderam as técnicas de geoprocessamento.
As análises são realizadas através de quatro softwares, um deles importado do Inpe, dois comprados com financiamento da Fapesp e o outro através do Ministério da Saúde.
Segundo o professor, após concluído o mapeamento dos últimos 13 anos no município, o objetivo é iniciar o mesmo procedimento abrangendo a década de 80.
Além disso, o professor lembra que o grupo está produzindo tecnologia de análise, o que permite que o estudo também seja desenvolvido em outras cidades da região.
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Resultados
Na primeira etapa do projeto, a partir do levantamento dos registros de óbitos já foi possível chegar a alguns dados referentes a saúde pública em Botucatu. O professor Ricardo Cordeiro constatou, por exemplo, que as doenças mais comuns na cidade são as cardiovasculares, responsáveis por cerca de 50% dos registros de morte. Em seguida vem os cânceres, com aproximadamente 20%, seguidos pelas mortes violentas (15%), e as doenças pulmonares (12%). “Isso de uma forma geral. Agora, se você pega a população masculina jovem, a primeira causa é a morte violenta”, explica.
Segundo o professor, os números levantados pela pesquisa ainda serão analisados. Entretanto, ele acredita que o resultados estejam dentro da média do perfil de mortalidade no Interior do Estado.