Fechando o mês de filmes com o tema “As Cidades”, o projeto Sala de Vídeo, da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), exibe hoje, a partir das 20h, no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”, o filme iraniano “A Caminho de Kandahar”, de Mohsen Makhmalbaf. A entrada é gratuita, mas a obra, de 85 minutos de duração, é recomendada para maiores de 12 anos.
Segundo a assessoria da Secretaria de Cultura, “A Caminho de Kandahar” dá voz às mulheres afegãs, que passaram pelo pesadelo de viverem sob o julgamento obscuro do Talibã, milícia radical islâmica que assumiu o poder em grande parte do território do Afeganistão e instaurou um brutal regime de censura e repressão que só caiu com a invasão do país, em 2002, por tropas americanas e inglesas.
Filmado entre novembro de 2000 e fevereiro de 2001, antes portanto dos bombardeios ocidentais ao Afeganistão, o trabalho é considerado um dos melhores do cineasta iraniano, cuja a habilidade de misturar ficção e realidade apagam as fronteiras entre uma e outra, sem, no entanto, descuidar da emoção.
O grande achado de Makhmalbaf no filme foi Niloufar Pazira, jornalista afegã exilada no Canadá, que esteve em São Paulo durante a 25ª Mostra BR de Cinema e foi, de longe, a visitante mais politizada do festival paulistano, dando de viva voz um depoimento que tornou tristemente clara a emergência social e humana de seu país.
Aproveitando quase todos os detalhes da história real de Niloufar e uma amiga, que desapareceu no Afeganistão dominado pelo Talibã, o cineasta criou um enredo que mistura o drama das mulheres - proibidas de ir à escola e trabalhar, obrigadas a cobrir-se da cabeça aos pés por um pesado traje, a burca - com o dilema dos inúmeros mutilados de guerra e a total falta de perspectivas econômicas para a maioria da população.
O enredo
A protagonista é Nafas, que recebe uma carta desesperada da irmã caçula. Na mensagem, a moça anuncia seu suicídio para o próximo eclipse, diante da total ausência de esperança de seu cotidiano. Além do sufocamento imposto pelos fundamentalistas às mulheres afegãs, a menina já vive o drama de ter perdido as duas pernas em uma mina.
O calvário de Nafas para entrar no Afeganistão e chegar a tempo para impedir a morte da irmã é desenhado por imagens de raro impacto - como a “chuva” de pernas artificiais lançada de um helicóptero pela Cruz Vermelha e disputada por uma multidão de mutilados ansiosos.
Em entrevista durante a Mostra em São Paulo, Niloufar contou que a idéia dessa imagem, que reflete a grande imaginação de Makhmalbaf, lhe foi sugerida quando o cineasta assistiu a um lançamento aéreo de pacotes de comida para os refugiados.
Ele pensou, então, em qual seria o grande sonho dos mutilados - que “chovessem” pernas, uma das coisas que mais lhes faltava no dia-a-dia.
Outra seqüência quase surrealista é o exame médico à distância. Na cena, o doutor Tabib Sahib examina suas clientes através de um biombo de pano, onde um pequeno buraco no centro não permite ver mais do que sua boca. Além disso, as mulheres não podem falar diretamente com o médico, nem ele com elas. Para esse diálogo, é necessária a presença de um homem, nem que seja um menino, como aparece no filme.
Bela também é a seqüência que mostra um cortejo de casamento, retratando uma multidão de mulheres na paisagem do deserto, em que a beleza das cores das burcas não oculta a ambigüidade de uma situação em que uma não vê o rosto da outra - portanto, quem está ao lado pode ser um inimigo em potencial, ainda mais no caso da jornalista, que viaja clandestinamente e com um gravador oculto nas vestes.
O filme recebeu como premiação a medalha de ouro Fellini, concedida pela Unesco.
• Serviço
“A Caminho de Kandahar”, de Mohsen Makhmalbaf. Hoje, às 20h, no Centro Cultural. Entrada gratuita. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 235-1072.