A cada semana, centenas de fiéis lotam a Paróquia de São Benedito, na Vila Falcão, para assistir à Missa da Fraternidade celebrada pelo padre Carlos Pessôa, 39 anos. Quando chegou a Bauru, em 1993, porém, ele teve que enfrentar o preconceito. Ligado à Renovação Carismática, o sacerdote mistura a liturgia tradicional a cânticos e coreografias, fato que lhe valeu o apelido de ‘padre pop’.
Durante a missa, o sacerdote também aborda temas como a cura e o poder da fé. Para ele, acreditar que é possível vencer uma doença é um aliado importante durante o tratamento. Nascido em Lajes (RN), ele entrou para a Congregação dos Padres Vocacionistas e, em 1984, passou a morar em um seminário no Rio de Janeiro. Seis anos depois, foi ordenado em Nápoles, na Itália, onde fica a sede da instituição.
Depois de trabalhar dois anos em um projeto na periferia de Salvador (BA), padre Carlos achou que era a hora de assumir uma paróquia. “Bauru tinha poucos padres. Escrevi ao bispo e ele disse para eu vir para cá”, diz.
Em seu escritório, o sacerdote exibe com orgulho uma foto tirada ao lado do Papa João Paulo II, durante um encontro no Vaticano. “Foi a única vez em que as minhas pernas tremeram. Eu achei que iria cair antes de chegar perto dele”, relembra.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Jornal da Cidade na última quarta-feira:
Jornal da Cidade - O senhor é considerado um padre ‘pop’ pelo estilo de celebração que realiza. Como isso surgiu? Padre Carlos Pessôa - Eu era muito inibido. Não sabia levantar os braços e nem fazer algo diferente do ritual da missa tradicional. Participei de um encontro, em São Paulo, com mais de 200 padres da Renovação Carismática. Nele, me abri um pouco mais. Quem o dirigia era uma freira irlandesa, que hoje está nos Estados Unidos. Ela prega no mundo inteiro para sacerdotes. Durante as orações, ela disse que teve uma visualização e me via com uma foice limpando um grande terreno. Eu estava para assumir essa paróquia e disse para mim mesmo que, assim que chegasse, iria celebrar uma missa carismática. Como, na época, existia muita discriminação contra esse tipo de celebração, dei o nome de Missa da Fraternidade e consegui arrebanhar velhos e novos. Na primeira vez em que a celebrei, tinha umas 600 pessoas. Hoje, o número passa de 2 mil. Eu vi que as pessoas gostavam disso.
JC - Como foi a reação das pessoas mais conservadoras a esse tipo de celebração? Padre Carlos - Quando eu cheguei aqui, sofri muita discriminação. Foi muito difícil. Primeiro, eu era um padre novo. As pessoas ficavam cismadas. Pensavam como era possível um ‘Zé Ninguém’ do Nordeste encher a igreja. Começou o ciúmes, até mesmo de outras paróquias. As pessoas começaram a questionar aquilo e o primeiro apelido que recebi foi de ‘bruxinho’, pois existiam coisas diferentes que elas não aceitavam. Nunca esqueço isso. A igreja tem todo um ritual que a gente respeita e não foge dele, mas a alegria voltou para a igreja, e não podemos negar isso, através do movimento da Renovação Carismática.
JC - O que o senhor fez para diminuir esse preconceito? Padre Carlos - Nunca liguei muito, não. Às vezes, até dou risada quando as pessoas dizem ou falam algo. A gente tem que ser aquilo que a gente é, e eu sempre fui muito natural. Embora celebrando uma missa festiva, com muito louvor, nunca deixei de ser natural. Nunca liguei para as críticas. Claro que, em alguns momentos, os colegas me questionaram sobre o motivo dessa missa, mas sempre encarei com naturalidade. Quem não gostava, dizia que era fogo de palha, que iria passar, mas já faz dez anos e não passou. Também fui criticado porque diziam que eu só sabia rezar e não tinha ações. Já estava no programa iniciar uma creche na paróquia e nós fizemos isso em 1995. Hoje, temos 120 crianças carentes. Temos também uma casa de adolescentes que foram vítimas de maus tratos e, neste ano, implantei uma casa de idosos abandonados. Isso calou um pouco quem dizia que só sabíamos levantar os braços.
JC - O senhor acredita que a celebração carismática é importante para manter as pessoas próximas à Igreja Católica? Padre Carlos - Eu digo sempre que, através da Renovação, muitas pessoas voltaram. Sei porque acompanho as pessoas aqui. Não gosto de falar que muita gente foi embora da igreja porque ela é morta. Depende muito de cada pessoa. Às vezes, quem passou para outra religião não tinha nem a prática católica tradicional. Não vejo isso como problema, mas também não posso negar que, hoje, muitas pessoas que estavam afastadas ou em outras religiões voltaram. Por que? Porque se sentem bem. Elas também passaram a freqüentar as suas paróquias, pois eu incentivo as pessoas a fazer isso.
JC - A Renovação Carismática ainda enfrenta preconceitos dentro da própria Igreja Católica. Por que isso ocorre? Padre Carlos - Na verdade, o que existe, talvez, é um novo que não se aceita bem. A Renovação Carismática, porém, está presente em todas as quase 300 dioceses do Brasil. Os bispos aprovaram um documento, há quatro anos, dizendo que ela é boa para a evangelização no Brasil. O que falta, hoje, talvez seja uma identificação. Eu, por exemplo, não era da Renovação, mas passei a entender e a aceitar. Aos poucos, estão se conscientizando sobre ela. Não vamos negar que cresce um movimento. O Papa, que é um homem de 83 anos, declarou outro dia que a Renovação é uma bênção para o tempo moderno.
JC - Há alguns anos, o padre Marcelo Rossi se tornou um fenômeno de mídia e chegou a ser criticado por esse motivo. O que o senhor pensa a respeito? Padre Carlos - Eu conheci o padre Marcelo quando o Papa veio ao Rio de Janeiro, em 1997, mas foi muito rápido, porque todo mundo queria falar com ele. Eu admiro muito o trabalho dele, que é padre há seis anos. Ele está com o bispo sempre ao lado em todos os lugares que visita, mas mesmo dentro da diocese, é muito criticado por arrebanhar o povo. Só que o que ele está fazendo é trazer Jesus para as pessoas que estavam afastadas. Eu vejo como uma coisa muito boa e há muitos padres em suas dioceses fazendo um trabalho semelhante. Com aquela celebração que faz aos sábados, transmitida pela Rede Vida, o Brasil começa a perceber que é uma celebração de louvor e que não tem nada de mais. Já fui convidado para ir celebrar com ele e uma vez a mãe dele ligou para mim, mas eu não tenho muito tempo.
JC - O senhor citou a Rede Vida. Os evangélicos começaram a utilizar a mídia antes da Igreja Católica, que só mais recentemente voltou as suas atenções para a área. Na opinião do senhor, qual a importância dos meios de comunicação para a evangelização? Padre Carlos - Acho que nós aprendemos um pouco com os evangélicos nesse sentido. Eles tiveram muita coragem e investiram muito na comunicação. Não podemos negar isso. A igreja tomou consciência depois, mas acho de suma importância os meios de comunicação. Hoje, temos três televisões católicas, a Canção Nova, a Rede Vida e a Século 21, que tem quatro anos e é de Campinas. Vejo como uma grande benção. Estamos, cada vez mais, evangelizando as pessoas e as conscientizando da sua importância em um mundo tão conturbado.
JC - O senhor aborda a questão da cura durante as celebrações. Por que a opção em tratar desse tema? Padre Carlos - A cura é sempre um presente de Deus e um mistério. Apareceu uma mulher aqui que estava com um mioma, fez exames e foi avisada pelo médico de que teria que fazer uma cirurgia. Na celebração, as pessoas rezam e pedem por todas as necessidades. Na semana seguinte, a mulher fez outro exame e não tinha mais nada. Eu acho isso um grande mistério. Vejo a cura como a fé da pessoa. Na última semana, fiquei impressionado com o testemunho de uma mãe. Ela trouxe água benta para levar até a filha, que estava na UTI. Nem cheguei a tocar na água, apenas a abençoei. A mãe passou a água na menina e, no outro dia, ela começou a falar. Hoje, ela já está andando. Os médicos já tinham a desenganado. Não há muita explicação para o mistério. Tudo é a fé da pessoa. Aquela mãe teve muita fé. É isso que é preciso, além da vontade de Deus, é claro, pois há tantos outros pelos quais nós rezamos e que morreram.
JC - O senhor já lançou seis livros e em 1999 gravou o CD ‘Plantando o Amor’. Como surgiram esses projetos? Padre Carlos - Sempre gostei de cantar e o CD foi um empurrão da comunidade. O mesmo acontece com os livros. Em nenhum deles achei que tinha o dom de escrever. As coisas foram surgindo. Tive a loucura de fazer um show na Luso, que teve 1.200 pessoas. Cantei 22 músicas sem saber uma única nota musical. O pessoal cobra muito um segundo CD, mas não tenho tempo. O que pretendo é lançar meu sétimo livro.
JC - Como será a Igreja Católica do futuro? Padre Carlos - Acho que teremos modificações muito sérias. O Papa João Paulo II está com 25 anos de papado, mas ainda é uma pessoa muito forte. Não acho que ele vá morrer logo. Ele vai atuar como coordenador geral da igreja. Ela vai caminhar no sentido das pessoas se tornarem mais fervorosas. As crianças de hoje, por exemplo, não vão agüentar mais uma missa parada. A nossa missa dos jovens tem até bateria e ela atrai. Se não houver algo que motive a criança, ela não virá. Vejo também uma igreja mais consciente com relação aos problemas sociais. As pessoas que estão aqui rezando também estão crescendo na consciência da justiça social, embora vivamos um problema de desemprego e outras coisas. Elas acreditam que há uma esperança, e não podemos negar isso a elas.
JC - Nesse cenário, teremos mais sacerdotes ‘pops’? Padre Carlos - Digo que teremos mais sacerdotes fervorosos. Hoje, por exemplo, há seminários de congregações em que o jovem já começa o dia vivendo essa Renovação Carismática. E esses locais estão cheios, por incrível que pareça. Não estão faltando muitos seminaristas e não vão faltar padres. Nós crescemos nos últimos quatro anos, com 2 mil padres a mais no Brasil. E, com certeza, cresce o número dos padres mais fervorosos, no sentido de uma igreja mais acolhedora e misericordiosa.