09 de julho de 2026
Articulistas

Menos álcool, menos crimes


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Basta dar uma volta por qualquer bairro de periferia de uma grande cidade para perceber os danos causados pelo alto consumo de bebidas alcoólicas. Muitas vezes sem emprego e desprovido de qualquer esperança de ascensão social, o cidadão começa o dia em balcões de padarias ou de botequins alguns improvisados em barracos das favelas, outros devidamente instalados como estabelecimentos comerciais, em busca do primeiro gole de pinga ou de outra bebida barata.

Não é difícil imaginar como esse mesmo cidadão estará à noite, depois de consumir outros tantos goles. As conseqüências são mais do que previsíveis e quase sempre trágicas. Se for para casa, bate na mulher e nos filhos, que sofrem por passar pelas mais diferentes privações. Se ficar no bar, não demorará a arrumar alguma confusão e se envolver em brigas. Ou ainda, a pessoa motivada pela embriaguez se torna presa fácil de traficantes, que a iniciam no mundo das drogas e dos crimes. A marginalidade acaba recrutando mais um que imagina não ter nada a perder.

Infelizmente, essas conjeturas fazem parte da realidade de milhares de famílias, que são vítimas diretas do álcool. Por isso, vemos com simpatia as possíveis restrições e o controle da propaganda de bebidas alcoólicas, que estão sendo discutidas por um grupo de trabalho interministerial criado para traçar a política nacional de redução de danos causados por bebidas alcoólicas. Mas é preciso ir além.

As medidas discutidas em Brasília, que incluem informações sobre os efeitos do álcool nas embalagens dos produtos, como já acontece com o cigarro, e limitações na veiculação das propagandas, além de aumento da incidência de impostos, terão efeito direto junto a jovens e adolescentes, principalmente de classe média. É comum ouvir desses garotos e garotas que uma “inocente” bebida ice ou um copo de cerveja não faz mal a ninguém. Atualmente, as restrições às bebidas se dão apenas em relação aquelas consideradas de alto teor alcoólico. As demais passam como inofensivas, quando, na verdade, figuram como a porta de entrada para o alcoolismo, uma dependência química tão resistente aos tratamentos quanto as intoxicações por drogas.

Já a população marginalizada, aquela que encontra em um copo de pinga o único meio para fugir ou se iludir diante da dura realidade em que vive, necessita de medidas mais eficazes. Para atingir esse grupo social, seria fundamental intensificar ações que resultem no fechamento desses botequins, a partir de determinado horário do dia. Há casos de cidades da Grande São Paulo, como Diadema e Barueri, onde leis municipais impuseram uma verdadeira “lei seca” ao impedir o funcionamento de bares depois de determinada hora noturna. Os resultados puderam ser verificados imediatamente, com a queda nos índices de criminalidade.

A limitação dos horários de funcionamento é uma medida fundamental a ser adotada em conjunto com outras ações. Mais do que pretender diminuir o consumo de bebidas alcoólicas, é necessário preservar a população das conseqüências desastrosas do álcool. (O autor, Romeu Tuma, é delegado de Classe Especial da Polícia Civil, deputado estadual peloPPS e presidente da Comissão de Segurança Pública da Assembléia Legislativa de São Paulo)