09 de julho de 2026
Regional

Sem-terra acampados em Pederneiras se mudam outra vez

Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

O grupo de agricultores sem-terra Terra Nossa começou ontem a se mobilizar para deixar a área ocupada, na região do Horto Florestal Aimorés, no município de Pederneiras. Esta é a sexta mudança do grupo, que está na região de Bauru desde janeiro e conta atualmente com 240 famílias. A liminar de reintegração de posse do terreno, a sétima que eles recebem desde janeiro, foi entregue à coordenação do Terra Nossa no dia 11 de agosto.

A juíza substituta Fernanda Martins Perpétuo de Lima Vásquez, da 2ª Vara do Forum de Pederneiras, havia concedido alguns dias para que o grupo desocupasse a área, prazo que se encerrou ontem. Os sem-terra começaram a desmontar as barracas anteontem à noite, por volta das 19h.

A desocupação foi acompanhada pelo major José Humberto Nardi, da Polícia Militar (PM). Havia um grande número de policiais presentes no acampamento, que logo foram dispensados. “Essa reintegração vem sendo negociada há algum tempo, e eles tinham a pretenção de sair pacificamente. Nós viemos com um número razoável de policiais, mas constatamos que tudo estava conforme o prometido, que eles sairiam sem problema”, afirma. O major declara que não foram registrados grandes incidentes envolvendo o grupo, e a PM estava presente apenas para manter a ordem.

“Nós estamos saindo de forma pacífica, mesmo com os policiais aqui. De acordo com o que combinamos com a juíza e com a PM, vamos sair”, diz Celso Costa, um dos coordenadores do grupo.

Os agricultores começaram a montar seu novo acampamento na margem da estrada que liga o Jardim Chapadão ao Esquadrão da Vida, a pouco mais de 300 metros do local anterior. A coordenação do Terra Nossa não soube informar a quem pertence a área.

Um dos coordenadores, conhecido como Zé do Facão, queixa-se de que a mobilização para mudança do acampamento deixa todos muito nervosos. “Temos de desmanchar tudo outra vez, as lonas se rasgam, nossa perda é muito grande. A gente fez algumas reivindicações, mas pelo que eu estou vendo, são só os caminhões chegando (para ajudar no transporte), ninguém deu nada, nem uma bobina de lona. Cada dia que passa, fica pior”, relata. Ele diz que a área do horto foi destinado à reforma agrária, mas que o grupo vai continuar aguardando pela terra.

Klinger Bueno, também coordenador do Terra Nossa, comenta que as famílias ficam tensas com as mudanças e com a pressão dos grileiros, mas que tudo isso faz parte da luta do movimento. Ele confirma que cerca de 40 crianças do acampamento continuam frequentando a Escola Estadual Ada Cariani Avalone, no Núcleo Mary Dota, e que a Prefeitura continua disponibilizando transporte escolar para elas.

“Nessa situação, são as crianças que se sentem mais abaladas. Elas questionam, querem saber porque estamos mudando de novo, e não entendem. As mais velhas, com 10 ou 12 anos, já começam a entender e ajudar, mas as mais novas... a gente sente por elas. É o preço que a gente paga na nossa luta”, diz Bueno.

O sem-terra Rui Pereira dos Santos conta que sente todos muito abalados e estressados com a situação. “Fica até um pensamento ruim, porque ninguém ajuda. Em cada lugar, a gente planta alguma coisa e perde tudo. Depois tem que começar do zero, tudo outra vez”, diz.

Antônio Carlos dos Santos e Adenilton Pereira de Oliveira estavam tocando violão e cantando alguns sucessos nacionais durante a desocupação. Eles contam que começaram a desmontar as barracas anteontem à noite e ainda não tinham conseguido dormir. “Tocar violão é uma maneira de aliviar a cabeça. Paramos um pouco de trabalhar porque viemos almoçar”, diz Santos.

“Ficamos tristes, revoltados, cansados, um pouco de cada. Cada vez que a gente muda de lugar, mais a gente perde. Mas eu vou falar a verdade: (a reintegração) não faz a gente perder a força. Faz a gente ficar com mais ânimo para lutar pela terra. Como essa terra é destinada à reforma agrária, estamos certos de que ela vai ser nossa”, conclui Oliveira.