08 de julho de 2026
Ser

Nomes compostos podem atrapalhar

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Apesar de ser de fácil entendimento e simples de escrever, o nome Francine Roberta Pera causa um certo desconforto à sua dona. A vendedora diz que não gosta da combinação e que prefere deixar o Roberta de lado na hora de se apresentar. “Prefiro omitir do que ter que falar os dois nomes juntos”, revela.

Segundo ela, a composição não chega a causar trauma ou grandes constrangimentos, mas incomoda por não ter uma sonoridade atraente. “É diferente de Ana Flávia, Maria Eduarda, que tem sintonia um com o outro. O meu é totalmente destoante”, destaca.

O mesmo problema vive a estudante Glauciana Elise Monteiro Nunes. “Meu nome é muito grande e não tem nada a ver um com o outro”, salienta.

Ela conta que se sente constrangida quando vai a algum lugar e seu nome é anunciado de maneira completa. “Acho que fica esquisito, não me sinto bem. Prefiro que as pessoas me chamem de Glau”, salienta.

A estudante diz que ficaria mais satisfeita se sua mãe tivesse escolhido apenas um dos dois nomes para batizá-la. “Se fosse só Gláucia ou só Elise, tudo bem. Mas, misturou tudo e ainda pôs o Ana no meio”, argumenta.

Por conta dessa divergência com os nomes compostos, Glau (ela prefere ser chamada assim!) já tem em mente qual nomes poderá colocar em seus filhos. “Com certeza, será algo bem simples, como Ana, Ian. Viu como é fácil? Apenas três letras e todo o mundo entende”, ressalta.

Mesmo tendo “implicância” com o nome, ela diz que não entraria na Justiça para mudá-lo. “Não chegaria a esse ponto”, salienta.

Mesmo porque, para conseguir trocar o nome, o caminho é longo.

De acordo com o oficial do 2.º Cartório de Registro Civil de Bauru, Alexandre Antonio de Matos Nascimento, para requisitar uma mudança do prenome (o primeiro nome da pessoa) é preciso provar o quanto a denominação causa transtornos na vida do indivíduo. “Para fazer uma grande mudança, o juiz precisa analisar uma série de detalhes, afinal, a vida toda a pessoa foi identificada dessa forma e, de repente, passará a ser chamada de outra maneira”, explica.

Esse tipo de mudança, Nascimento diz que nunca viu em Bauru. O que ocorre com mais freqüência é o pedido para retificações. “Muitas vezes, a grafia está errada, como, por exemplo, o Souza da família é com z e o daquela determinada pessoa foi escrito com s. Aí é mais fácil conseguir a mudança”, destaca.

Nome de presidente

Fernando Henrique Cardoso está trabalhando como conferente em uma empresa de Borebi e já não precisa mais escutar tantas piadas como acontecia há cerca de dois anos, quando o seu homônimo estava na presidência da República. “Quando andava na rua, sempre tinha alguém que mexia comigo, perguntava se eu não ia aumentar o salário do brasileiro, essas coisas”, diz.

Mesmo sendo tímido, Fernando não se sente muito incomodado com as piadas. “Eu levo na esportiva, não adianta ficar bravo”, conta.

O nome dele foi escolhido pelo pai, que achava bonita a combinação. “Não tem nenhuma influência do ex-presidente. Quando eu nasci, o famoso FHC ainda era pouco conhecido e meu pai nem imaginou que um dia iria se tornar presidente do Brasil”, conta.

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Questão de auto-estima

Para o psicoterapeuta Ricardo Mokdici, o fato de uma pessoa não gostar do próprio nome pode estar ligado à imagem que ela faz de si própria. Em alguns casos, isso é sinal de que ela não está se aceitando do jeito que é. “Dependendo do caso, isso pode refletir insegurança e falta de amor próprio”, revela.

Segundo ele, é muito comum a pessoa transferir a não-aceitação do nome para si e, dessa forma, passar a ter dificuldade de conviver com o seu jeito de ser.

“A pessoa deve se lembrar que o nome não é uma característica primordial da sua personalidade. Então, ele não pode interferir dessa maneira no seu comportamento”, destaca.

Mokdici acredita que esse problema se destaque mais durante a adolescência, que é uma fase crítica no desenvolvimento do ser humano. “Nessa época, tudo é complicado: a obesidade, a orientação sexual, a condição financeira, tudo vira um fardo mais pesado de se carregar”, salienta.

O recurso de abreviar ou omitir o nome só esconde por um tempo o problema. “O melhor é aprender a ter orgulho do nome e dizê-lo com todas as letras, sem constrangimento”, diz o psicoterapeuta.

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Curiosidades

• Júnior designa grau de parentesco. Portanto, não deve ser usado como prenome.

• É possível colocar na criança o mesmo nome da mãe, acrescentando o “Filha” no final.

• Nomes estrangeiros, como Washington, por exemplo, deveriam ser aportuguesados. Mas, como são bastante comuns, os cartórios costumam grafá-los no original, evitando, assim, confusões e constrangimentos.

• 99% das mulheres acrescentam o sobrenome do marido ao seu; apenas 1% dos homens adotam o da esposa.

• Nomes estranhos e que possam causar problemas futuros são evitados pelos cartorários