10 de julho de 2026
Geral

Estética facial é alvo da fonoaudiologia

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

A fonoaudiologia - ciência que trata das alterações da fala, audição, mastigação e deglutição - está investindo numa nova área de atuação: a estética. Os profissionais perceberam que os exercícios usados para corrigir tais alterações acabavam modificando a aparência do paciente. Ao fortalecer ou relaxar músculos mal usados, notou-se que era possível suavizar e prevenir rugas e marcas de expressão.

O assunto foi tema de um curso realizado durante a 10.ª Jornada Fonoaudiológica promovida pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP).

A fonoaudióloga Sílvia Pierotti, especialista em motricidade oral, explicou que as rugas podem ter duas origens. Uma delas é o enfraquecimento muscular causado pelo envelhecimento. Ao fortalecer estes músculos, é possível suavizar as rugas já existentes e prevenir o aparecimento de outras, com um resultado semelhante ao de um “lifting”.

“A outra situação, que é muito comum, são as marcas de expressão. Elas aparecem ou porque a pessoa tem alterações na motricidade oral, ou porque tem vícios de expressão”, comenta Sílvia.

É o caso das pessoas que têm a língua flácida, por exemplo. Sem força suficiente para empurrar os alimentos para a garganta, elas contraem a musculatura ao redor dos lábios. Com o tempo, isso cria rugas em torno da boca.

Outro exemplo citado pela especialista são as pessoas que têm uma mastigação muito anteriorizada, ou seja, que usam os dentes pré-molares para triturar o alimento em lugar de usar os molares. Tal postura também exige contração exagerada dos músculos da boca.

“Também há os exageros de expressão, como as pessoas que fazem bico para escrever, que contraem muito a musculatura dos olhos para sorrir, que contraem a musculatura da testa quando preocupadas. Elas acabam provocando rugas pela atividade exagerada da musculatura”, observa Sílvia.

É nesses casos, segundo ela, que o botox - um tratamento feito à base de injeções - funciona: a toxina aplicada paralisa esses músculos e as rugas desaparecem. “Mas se for mal empregado, a pessoa pode perder o vedamento labial, por exemplo, o que pode levá-la a babar”, adverte.

Ela defende que a fonoaudiologia vai identificar essas alterações e exercitar a musculatura de modo a combatê-las naturalmente. Então, se a pessoa aperta os lábios enquanto trabalha, por exemplo, o profissional primeiro vai ensinar o paciente a observar tal comportamento e perceber em que situações isso acontece.

Depois, ele vai indicar exercícios que ajudem a suavizar essa tensão, devolvendo naturalidade à expressão.

“Pés-de-galinha”

Outra alteração comum, de acordo com a fonoaudióloga, é a contração exagerada dos músculos que circulam os olhos, resultando nos incômodos “pés-de-galinha”. Algumas pessoas fazem isso ao sorrir, outras quando saem ao sol. No caso do sorriso, é preciso modificar o hábito; para a fotofobia, recomenda-se o uso de óculos de sol.

“Contra as marcas de expressão, é preciso observar as mímicas que a pessoa executa durante a fala, mastigação, deglutição e outras situações do dia-a-dia, ensinando-a a não contrair os músculos desnecessariamente. Muitos destes vícios aparecem ainda na infância, como a criança que faz ‘cara’ de brava quando brinca”, explica.

Todas essas situações podem ser tratadas com exercícios fonoaudiológicos. “O trabalho com a face é semelhante ao que é feito com o resto do corpo. A pessoa que está incomodada com uma barriguinha vai para uma academia fazer musculação para fortalecer e enrijecer aquela região. Fazemos a mesma coisa com os músculos da face”, compara Sílvia.

Durante o curso, ela cita o exemplo de uma paciente de 38 anos que apresentava flacidez na bochecha e, com isso, formava pregas ao sorrir. Em 16 sessões de 45 minutos cada, com massagens, relaxamento, alongamento e fortalecimento, ela obteve um resultado que considerou ótimo.

De acordo com a professora de motricidade oral da FOB, Katia Flores Genaro, não existe uma disciplina voltada especificamente para a estética nos cursos de fonoaudiologia. No entanto, todos os profissionais da área são habilitados para identificar e corrigir essas alterações. Ela afirma que o uso da fonoaudiologia para fins puramente estéticos é algo recente e que deve ser expandido nos próximos anos.

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Especialista condena manuais de ginástica

A fonoaudióloga Sílvia Pierotti adverte que as pessoas cometem um erro grave ao utilizar de manuais e fitas de vídeo que ensinam a fazer a chamada ginástica facial. Segundo ela, o exercício errado ou mal feito pode agravar o problema.

Ela explica que uma pessoa que tem uma marca de expressão porque contrai excessivamente determinado músculo precisa aprender a relaxar e alongar aquele músculo. Se ela faz um exercício de fortalecimento, o resultado vai ser maior contração.

“Só um profissional é capaz de avaliar e identificar com segurança quais são os músculos que precisam ser alongados, relaxados ou fortalecidos. E isso é uma coisa muito individual. Cada pessoa necessita de um tipo diferente de exercício e esses manuais misturam tudo”, observa.

Sílvia salienta que os músculos da face são muito próximos uns dos outros, o que aumenta o risco de que a pessoa trabalhe a estrutura errada durante um exercício.

“Não é como a perna, os glúteos, braços, que têm músculos grandes. Os da face são fininhos. Se o exercício precisa fortalecer um e o paciente utiliza outro, só um especialista é capaz de perceber o erro”, ressalta.

Além disso, ela salienta que é fundamental respeitar os limites de cada pessoa. “Você não pode simplesmente dizer para a pessoa manter determinada postura durante dez segundos se ela só agüenta cinco segundos. Se ela forçar além dos limites, pode entrar em fadiga muscular, o que só vai piorar a situação”, encerra.