Confesso que está um tanto difícil convencer a minha filha de 9 anos de que existe coerência nas atitudes do governo. E os nossos diálogos são diários, constantes, bem diferentes dos que aconteciam com os meus outros filhos, frutos do primeiro casamento. Preocupado em evitar um distanciamento entre nós, usamos os jornais diários, revistas e noticiários de rádio e TV e, baseados no que vemos, procuramos analisar o assunto. E não são raras as vezes que tenho que usar de argumentos mais variados para procurar justificar o que o governo faz, ou o que promete ou pretende fazer.
Tenho usado alguns desses nossos diálogos para pronunciamentos no plenário da Assembléia Legislativa. Infelizmente, o tempo tem sido curto, mas mesmo assim tenho conseguido levar as suas dúvidas aos demais membros do parlamento. E o que causa espanto é que muitas dessas dúvidas, de uma criança da 3ª série do Ensino Fundamental, acabam confundindo a cabeça de muitos deputados, senhores com larga experiência de vida.
Senão, vejamos. O governo disse que, com as mudanças da Previdência Social, seriam economizados R$ 50 bilhões, em 20 anos. Ao mesmo tempo, esse mesmo governo paga US$ 50 bilhões ao ano, de juros. Com o dólar raspando nos R$ 3,00, a minha filha fez um cálculo simples e constatou que, enquanto anuncia que economizará R$ 50 bilhões em 20 anos, esse mesmo governo estará canalizando para os bancos internacionais nada menos do que R$ 3 trilhões, nesses 20 anos. Eis a primeira dúvida de uma criança de 9 anos: “Seria essa a tal vitória, cantada em verso e prosa pelo governo?â€
Em outro diálogo, a minha filha Lilinha quis saber por que as placas dos carros trazem o nome do município, acima dos números. Eu expliquei o porquê e o que é IPVA, o que é imposto e como ele é dividido. Disse que metade desse imposto vai para o Estado e a outra, para o município. E tive que explicar o porquê de veículos licenciados no Estado do Paraná estarem rodando no Estado de São Paulo: â€œÉ que, no Paraná, o IPVA é mais barato e as pessoas de outros estados licenciam os carros lá, para pagar menos imposto.†Então, a minha filha quis saber o que é reforma tributária.
Fui obrigado a falar sobre a “guerra fiscal†e as suas conseqüências. Dizer que o Estado de São Paulo perde bilhões de reais por ano (e que a prefeitura de São Paulo também perde), simplesmente porque a legislação que rege o ICMS contém falhas gritantes. E o pior, ao que parece, esses erros não serão corrigidos na tal reforma tributária. E a pequena Lílian perguntou: “Se o governo não consegue corrigir um simples erro de uma placa de carro, como irá corrigir os erros maiores?â€. Eis a segunda dúvida de uma criança.
Ainda falando sobre reformas, a minha filha citou a reforma feita na casa de sua avó. Lembrou que os trabalhos começaram no banheiro, depois na sala, cozinha e, por último, no quarto. Sempre de maneira ordenada, com os pedreiros preocupados com a poeira, com os detritos, com o entulho. Aliás, em uma reforma o que mais se vê são entulhos. Pois bem. Acostumada ao noticiário diário, ela se recordou da reforma da Previdência e começou a fazer comparações. Mudanças aqui, ali, acolá, quebra, faz, põe, tira.
Não demorou muito para que no noticiário da TV, o representante do governo anunciasse novas reformas: política, sindical, trabalhista, administrativa, uma confusão danada. Na visão da Lilinha, devemos estar em obras. Resta saber se os pedreiros têm a orientação correta e se o engenheiro responsável pela reforma tem os pés no chão, a cabeça no lugar, e, principalmente, as ferramentas corretas: prumo, nível, enxadas, pás e picaretas, além, é claro, de competência, muita competência. E foi aí que surgiu outra dúvida na cabeça da criança: “O governo depende também de picaretas?†Fui obrigado a recordar algumas legislaturas passadas. E antes que respondesse, a vizinha trouxe a sua filha e, juntas, saíram para brincar. Acho que a dúvida não é apenas da Lilinha... (O autor, Vitor Sapienza, é economista, deputado estadual pelo PPS/SP)