Os danos emocionais causados aos familiares de vítimas de homícidio podem provocar desde a depressão até o sentimento de vingança, o que ajudaria a perpetuar a violência. Essa é a opinião da psicóloga Marilene Krom, para quem a revolta com relação ao crime pode gerar, em alguns casos, novos assassinatos. “Fica muito difícil saná-los justamente por conta das questões traumáticas que surgemâ€, opina.
Ela lembra que o homicídio é um dos acontecimentos que mais causam impacto à estrutura familiar. “A violência prejudica todas as pessoas de uma maneira extremamente nociva. Os familiares são indiretamente atingidos pela carga nociva que ela impetra contra um de seus membrosâ€, diz.
Marilene afirma, porém, que as pessoas devem se esforçar para superar essa fase difícil. “Elas têm que continuar vivendo a vida delas. Precisam estar inteiras e bem, apesar do que aconteceu, até para que possam cuidar dos outros. A morte é irreversívelâ€, declara.
Para ela, a repercussão em torno de uma morte também é um problema cultural. “Nós, ocidentais, não estamos preparados para lidar com ela como os orientais. A gente nunca pensa que pode acontecer algo com alguém próximo. Quando o idoso tem uma doença de longo prazo, ele, às vezes, se prepara para a morte. É diferente quando uma pessoa é jovemâ€, acredita.
Trauma
O titular da Delegacia de Investigações Gerais/ Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (DIG/Garra), J.J. Cardia, concorda com a visão de que um homícidio provoca problemas nas relações familiares. “A rotina muda, primeiro porque os parentes passam por um trauma grande. Muitas vezes, a vítima é quem mantém a família financeiramente e psicologicamenteâ€, opina.
Ele acredita que os danos emocionais podem se estender por um longo período. “Os filhos podem ficar traumatizados para o resto da vidaâ€, diz.
Um dos exemplos de como o homicídio pode mexer com a vida dos familiares é a empregada doméstica Nilce Barbosa dos Santos. O marido dela, Admilson Aparecido Fernandes, foi assassinado em julho. “Muda praticamente tudo, porque é uma ausência que vai durar o resto da via. Você sente falta e sabe que ele nunca mais vai voltarâ€, diz.
Nilce diz que ficou chocada ao saber que o marido havia sido morto com dois tiros. “Foi inesperado. Nunca pensei que pudesse acontecer algo com alguém tão próximoâ€, lamenta.
Três dias após o crime, a polícia prendeu um adolescente de 15 anos que teria confessado o homicídio. Segundo declarações que ele prestou ao titular da Delegacia da Infância e da Juventude (Diju), Adib Jorge Filho, o motivo do assassinato seria um revólver que havia sido emprestado à vítima.
Quase dois meses depois, Nilce ainda se emociona ao lembrar do fato. Na pequena casa em que mora, no Parque Santa Cândida, restou a companhia dos filhos, um de 10 anos e o outro de 5 anos. “Eles sempre perguntam do paiâ€, afirma.
O lado financeiro da família, ao menos, não sofreu alterações. “Meu marido estava desempregado e nós nos mantínhamos com o meu salário de diaristaâ€, revela.
Ela conta ainda que não tem receio de que a família possa ser vítima da violência novamente. “A vida da gente está nas mãos de Deus e isso é algo que pode acontecer com qualquer um. Por isso, não tenho medoâ€, diz.