09 de julho de 2026
Polícia

Crime ajuda a perpetuar a violência, avalia psicóloga

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 3 min

Os danos emocionais causados aos familiares de vítimas de homícidio podem provocar desde a depressão até o sentimento de vingança, o que ajudaria a perpetuar a violência. Essa é a opinião da psicóloga Marilene Krom, para quem a revolta com relação ao crime pode gerar, em alguns casos, novos assassinatos. “Fica muito difícil saná-los justamente por conta das questões traumáticas que surgem”, opina.

Ela lembra que o homicídio é um dos acontecimentos que mais causam impacto à estrutura familiar. “A violência prejudica todas as pessoas de uma maneira extremamente nociva. Os familiares são indiretamente atingidos pela carga nociva que ela impetra contra um de seus membros”, diz.

Marilene afirma, porém, que as pessoas devem se esforçar para superar essa fase difícil. “Elas têm que continuar vivendo a vida delas. Precisam estar inteiras e bem, apesar do que aconteceu, até para que possam cuidar dos outros. A morte é irreversível”, declara.

Para ela, a repercussão em torno de uma morte também é um problema cultural. “Nós, ocidentais, não estamos preparados para lidar com ela como os orientais. A gente nunca pensa que pode acontecer algo com alguém próximo. Quando o idoso tem uma doença de longo prazo, ele, às vezes, se prepara para a morte. É diferente quando uma pessoa é jovem”, acredita.

Trauma

O titular da Delegacia de Investigações Gerais/ Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (DIG/Garra), J.J. Cardia, concorda com a visão de que um homícidio provoca problemas nas relações familiares. “A rotina muda, primeiro porque os parentes passam por um trauma grande. Muitas vezes, a vítima é quem mantém a família financeiramente e psicologicamente”, opina.

Ele acredita que os danos emocionais podem se estender por um longo período. “Os filhos podem ficar traumatizados para o resto da vida”, diz.

Um dos exemplos de como o homicídio pode mexer com a vida dos familiares é a empregada doméstica Nilce Barbosa dos Santos. O marido dela, Admilson Aparecido Fernandes, foi assassinado em julho. “Muda praticamente tudo, porque é uma ausência que vai durar o resto da via. Você sente falta e sabe que ele nunca mais vai voltar”, diz.

Nilce diz que ficou chocada ao saber que o marido havia sido morto com dois tiros. “Foi inesperado. Nunca pensei que pudesse acontecer algo com alguém tão próximo”, lamenta.

Três dias após o crime, a polícia prendeu um adolescente de 15 anos que teria confessado o homicídio. Segundo declarações que ele prestou ao titular da Delegacia da Infância e da Juventude (Diju), Adib Jorge Filho, o motivo do assassinato seria um revólver que havia sido emprestado à vítima.

Quase dois meses depois, Nilce ainda se emociona ao lembrar do fato. Na pequena casa em que mora, no Parque Santa Cândida, restou a companhia dos filhos, um de 10 anos e o outro de 5 anos. “Eles sempre perguntam do pai”, afirma.

O lado financeiro da família, ao menos, não sofreu alterações. “Meu marido estava desempregado e nós nos mantínhamos com o meu salário de diarista”, revela.

Ela conta ainda que não tem receio de que a família possa ser vítima da violência novamente. “A vida da gente está nas mãos de Deus e isso é algo que pode acontecer com qualquer um. Por isso, não tenho medo”, diz.