08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O manto diáfano


| Tempo de leitura: 2 min

Nas minhas andanças periódicas por São Paulo, antes cursando aulas e cursos variados, ultimamente passeando, principalmente nos sebos do centro, pois vasculhar sebos, sempre foi para mim uma tarefa agradável, pesquisando algo.

Entre as coisas boas que temos tido ultimamente em Bauru, que nem tenho mais de ir procurar em São Paulo, está o sebo, onde passo, pelo menos um dia por semana, na parte da manhã ou da tarde. E lá, diante de uma estante que ostentava romances de Delly, Ardel, Bherta Ruck e Eleanor Glyn, a chamada literatura água com açúcar, no meu tempo de escola, eu me detive a conjeturar que essa literatura era característica dos meus anos dourados e de todas nós, “meninas do calçadão”. Era com essa literatura que embalávamos nossos sonhos e fugíamos de chateação dos livros de leitura obrigatória, como a Iracema do José de Alencar que nos fazia rir com aquela índia de “cabelos negros como a asa da graúna” que não usava nem sabonete para lavar os cabelos e “tinha lábios de mel”, sem escovar os dentes.

Lendo em jornais e revistas e vendo pela televisão, exemplos como do César que trai a todas que diz amar, o outro que bate na mulher, outra que esfaqueia o marido, fora os bárbaros crimes passionais e os maus tratos de namorados, maridos, noivos e amantes. Eu penso que faltou a essa gente toda, um pouco mais dessa literatura água com açúcar, essa literatura romântica, na qual o amor fulgura como uma luz brilhante, iluminando os apaixonados e fazendo deles melhores, pelo amor. Quase sempre nesses romances, o amor salva, redime, eleva. Faria bem à juventude de hoje, bombardeada diariamente pelas tragédias de amores tão feios, ler relatos, embora romantizados, de amores tão bonitos.

Será que não seria agora o tempo de resgatar essa literatura, colocando como queria Eça de Queirós, “sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”?

Isolina Bresolin Vianna - Academia Bauruense de Letras