Alguns turistas reclamam da proliferação de ambulantes pelas praias de Porto Seguro, mas se esquecem que o lugar chega a atrair mais de 2 mil turistas por semana somente por uma única operadora de turismo. Claro que ninguém vai sair de lá sem comprar uma camiseta, fazer tererê e tatuagens de henna, mesmo que estiver com o dinheiro contado.
Também vai ser difícil evitar a aproximação de guias oferecendo os mais diversos passeios opcionais, que podem ser comprados antes mesmo da viagem. No centrinho da cidade há empresas que oferecem pacotões mais em conta do que os responsáveis pelo receptivo, mas é sempre bom saber antes ao quê dão direito, quais os veículos que serão utilizados e os lugares a serem visitados para evitar dor de cabeça.
Na volta dos passeios há mais para se fazer, já que neste trecho do litoral a Bahia é uma loucura. A noite é quente e agitada na “vila”, atravessando a noite nas casas noturnas e barracas de praia, que promovem festas e luaus a semana toda.
Caraíva selvagem
O tempo parece ter parado na graciosa Caraíva, lugarejo que ainda se mantém selvagem, embora fique perto da agitação.
Saindo de Porto Seguro, chega-se até lá pela estradinha que leva a Trancoso. Vencida a primeira etapa, a seguinte não mete medo: é só chacoalhar por mais 36 quilômetros de terra.
A estrada não é das melhores mas a viagem valerá a pena se a procura for por um lugar que se mantém tranqüilo, como a Jericoacoara do passado, com poucas pousadas com varandas de frente para o mar e com quintal voltado para o rio.
Por ser banhada de água por quase todos os lados, muita gente pensa que Caraíva é uma ilha. Na verdade, é um península, uma faixa de terra estreita e comprida entre o rio e o mar, somente atingida por canoas e barcos que fazem a travessia à terra firme.
Como lá não circulam automóveis, o turista que se dirigir às pousadas terá como auxílio charretes que funcionam como os táxis locais. Na falta, a ordem é ir a pé mesmo, caminhando sem pressa pelas ruas de terra.
Bagagem deixada nos quartos, a dica é procurar a agência de Navegação Caraíva, com sede na Casa Barra Velha, que organiza passeios de escuna até a Ponta do Corumbau, uma charmosa vila de pescadores com direito a parada para mergulho no arrecife de Itacolomi, repleto de corais.
A mesma empresa também oferece passeios para Curuípe, que abriga a praia do Espelho, lugar paradisíaco onde ricos e famosos constróem suas mansões de veraneio, há piscinas naturais e restaurantes refinados como o baiano e o Gaúcho, que servem os clientes em mesinhas e almofadas voltadas para o mar.
De Caraíva a Curuípe são 12 quilômetros, mas o caminho é cansativo para se ir a pé. Prefira a companhia de um guia que irá mostrando durante o percurso lugares dignos de cartão postal: com falésias, riachos e lagoas, no caso, a localizada na Ponta do Satu.
Outra opção é cavalgar até a aldeia de Barra Velha, reserva dos índios pataxós que vendem artesanato feito com fibra e sementes naturais tiradas de uma palmeira da região. Assim como em Porto, Caraíva tem sua bebida local que turista nenhum poderá deixar de provar: o Netuno, uma bebida feita de vinho de caju e gengibre.
Segundo os nativos, embora não seja das mais deliciosas para paladares paulistas, é afrodisíaca. Faz velho virar garoto porreta.
Trancoso hippie-chique
Trancoso é uma Caraíva chique e sofisticada. O vilarejo não tem a azaração frenética de Porto Seguro, mas há anos foi descoberta pelos artistas, milionários, pela luz elétrica, pelo fax e Internet. Mesmo assim ainda conserva a tranqüilidade e a paz em suas praias cercadas por falésias vermelhas e brancas que a tornam especial.
Como juntamente com Porto Seguro, Caraíva, Santa Cruz e Arraial d’Ajuda faz parte da Costa do Descobrimento, além de suas belezas naturais intocadas conta parte de nossa história.
E ela se faz presente nas casinhas coloridas do Quadrado, espaço do qual pertencem a pequena Igreja de São João e a pracinha de piso gramado.
Ao lado da igrejinha enfileram-se casinhas simples de onde avista-se o mar. São construções remanescentes dos séculos 17 e 18, no estilo açoriano, com porta e janela, detalhes que resultam numa simplicidade que chega a emocionar quem está acostumado a obras faraônicas.
Essas características tornam Trancoso única de dia ou à noite. Quando o sol se põe, as mesas dos bares e restaurantes que hoje ocupam as casas do Quadrado, são iluminadas por velas, emoldurando a praça como um presépio à céu aberto.