“Bauru é privilegiada em vários aspectos. Em matéria de pescaria temos entre nós, bauruenses de coração, o dono de um dos melhores ranchos do País. Falo do Rancho Xingu, um surpreendente e atencioso staff, num espetáculo de instalações encravadas ao Norte de Mato Grosso, na Bacia Amazônica, distante das civilizações e ao lado da Reserva do Xingu, onde indígenas tratam de impedir, até a força, que a natureza seja atacada. A proteção da fauna e flora na região é de imediato notada.
Não é demais dizer que o Rancho Xingu encontra-se numa das áreas mais piscosas que se conhece e isso se explica pela vizinhança com a Reserva Indígena do Xingu, afinal os peixes após nadarem livremente rio acima por centenas de quilômetros pelo Xingu, percorrendo toda a Reserva Indígena, quando ultrapassam o Xingu e entram no rio Koluene estão em frente às terras do rancho “bauruense”. Melhor lugar para pescar que esse, portanto, se é que existem, são poucos.
Em busca desse local maravilhoso, embarcamos no final de julho com uma seleta turma de pescadores, que nasceu no Bauru Golf Clube há seis anos. Seguimos em 23 pessoas, de ônibus, para Canarana/MT de onde deveríamos seguir, de avião, para o Rancho Xingu. A viagem é longa, 24 horas de ônibus, de forma que já saímos de Bauru aperitivando, conversando, assistindo e comentando os filmes educativos exibidos pelo videocassete do ônibus.
Chegamos ao Rancho Xingu num sábado pela manhã, quase no horário de almoço, e lá já encontramos o Airá, um índio perambulante que oferecia suas peças de artesanato e pedia presentes.
Todos almoçaram e foram para seus apartamentos, (com ar-condicionado), arrumar suas tralhas e descansar da viagem. Pesca mesmo só no dia seguinte. Ao anoitecer, os pescadores foram se agrupando ao redor de uma farta mesa, num amplo e arejado salão, para apreciar as deliciosas caipirinhas preparadas com maestria pelo Árabe do grupo, bebidas entre tantas cervejas “estupidamente” geladas.
Às tantas, juntou-se aos bons o “Primo”, como era chamado o primo de um dos pescadores do grupo original que pelo primeiro ano participava da pescaria. Todos notaram que ele estava vestido com um lindo pijama de algodão azul, novíssimo. Saltou aos olhos a inveja dos demais, que deveriam dormir com suas roupas velhas, mas ninguém comentou nada.
Nas noites seguintes, a história se repetia e o grupo, cada vez mais unido, já começava a comentar sobre o ”pijama do Primo”, sem que ele percebesse, é lógico. Na noite de quarta-feira uns dos jovens pescadores mais chegados ao Primo teve a brilhante idéia de presentear o índio Airá com o “pijama do Primo”. Sua idéia foi levada ao grupo e aprovada “por unanimidade”.
Assim, na manhã de quinta-feira, enquanto o Primo tomava seu café da manhã, um de seus companheiros de quarto pegou o pijama e entregou a outro pescador, mais velho, saindo logo em seguida com o Primo para pescarem. O pijama foi então entregue ao índio Airá, que de bobo não tem nada diga-se, e ele paramentou-se rapidamente para depois sentar-se numa poltrona, com toda pompa, esperando a chegada do Primo. Mas o Primo demorou muito e o Cacique chamou Airá para irem embora, de barco, para a reserva.
No caminho o barco dos índios, que descia o rio Koluene, cruzou com o barco onde estavam o Primo e outro pescador que sabia da brincadeira e eles puderam ver que Airá estava vestido com o “pijama do Primo”, todo sorridente, acenando para eles. O pescador que acompanhava o Primo não se conteve e alertou-o, dizendo que achava que o Airá estava vestindo seu pijama. O Primo respondeu que não podia ser, confiava em seus companheiros de quarto e não acreditava que pudessem ter feito isso: dar a um índio o pijama novinho que havia ganho da esposa, sabendo que ela iria ficar brava quando ele chegasse em casa sem o pijama. Como iria explicar que “perdeu” o pijama!!!
Chegando no Rancho, o Primo foi direto procurar o pijama, não encontrando. Como ele ficou quieto, ninguém comentou nada. Só nos dias seguintes, já na viagem de volta, é que o Primo descontraiu novamente e então mostraram a ele as várias fotografias digitais tiradas de Airá vestido com o ‘pijama do Primo’. Chegando em Bauru, para a alegria e tranqüilidade de todos, o Primo nos contou que sua esposa, a Prima, tinha achado graça na brincadeira e lhe dado um pijama novo...”
Antonio Carlos Piccino Filho é pescador e contador de histórias.