09 de julho de 2026
Regional

Suspeita de pedreiro começou na infância

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 3 min

Agudos – O pedreiro Florêncio Ribeiro de Souza, 38 anos, morador de Agudos, encara com naturalidade e bom humor o fato de possuir os órgãos do corpo invertidos.

Segundo ele, já durante a infância na Bahia – sua terra natal -, ele achava estranho o fato de seu batimento cardíaco poder ser ouvido com maior intensidade do lado direito do peito. “Lá na Bahia eu corria muito atrás de cabrito e o coração batia mais desse lado (direito). Aí eu fiquei meio em dúvida. Eu colocava o ouvido no peito dos outros irmãos e ouvia do lado esquerdo”, conta.

Entretanto, entre a postura de estranhamento e o diagnóstico final, passaram-se vários anos.

Em 1979, Florêncio veio para São Paulo. Há cerca de 15 anos, quando morava em Igaraçu do Tietê, desenvolveu uma úlcera no estômago e recorreu a um especialista. Foi quando veio a primeira resposta. Depois de se submeter a exames, o médico o teria informado que os órgãos estavam invertidos. “Mas eu pensava que era só o coração que era do lado direito”, justifica.

Anos depois, ao sofrer um acidente de trabalho, Florêncio afirma que foi conduzido ao hospital da Unesp de Botucatu e lá recebeu novamente a informação.

Ele conta que, depois disso, quando doente, procurava alertar aos médicos sobre sua anomalia. Mas, devido à raridade, segundo o pedreiro, nem sempre eles acreditavam prontamente. “Os médicos começam a caçar o coração do lado esquerdo e eu falo que o coração não é ali não. Aí, às vezes eles ficam até bravo com a gente. Depois que colocam o aparelhinho eles começam a acreditar”, afirma. Há pouco tempo, segundo ele, até seus familiares não levavam muito a sério a “história”.

Agora, com o último problema de saúde, que culminou com a retirada da vesícula, Florêncio afirma que não restam mais dúvidas. “O doutor Samir falou que o fígado, todos os órgãos estão invertidos”, conta. “Agora está tudo comprovado”. O pedreiro vinha sofrendo com o problema na vesícula há cerca de cinco anos.

Sorte

Florêncio afirma que o fato de ter os órgãos invertidos já chegou a lhe trazer sorte. Um exemplo ocorreu em Itaquera (SP), quando sofreu um acidente enquanto trabalhava em uma construção. Segundo o pedreiro, o disco de uma máquina de cortar tijolo estourou e perfurou seu peito do lado esquerdo. “Na época, eu pensei: se meu coração fosse do lado esquerdo olha lá se eu não tinha morrido”, relata.

Florêncio afirma que nunca sentiu nenhum desconforto por causa da inversão e que sempre levou uma vida normal. Segundo ele, tirando a antiga úlcera e pedras na vesícula, a saúde continua em forma e agüenta qualquer desafio. “O duro é se alguém atira em mim para não matar, do lado direito, e acaba matando”, brinca.

Dono de um bom humor invejável, o pedreiro se diverte inclusive com as “piadinhas” que freqüentemente escuta, até mesmo dos médicos. “Eles perguntam, brincando, se as outras partes estão no lugar certo”, afirma (rindo).

Florêncio é casado e possui três filhos. Segundo ele, de uma família de 12 irmãos, somente ele nasceu “com tudo ao contrário”.