08 de julho de 2026
Auto Mercado

Queda de juros e IPI 'aquecem' mercado

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

A redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) não surtiu o efeito esperado nas vendas de automóveis no País. Prova disso é que a comercialização de veículos novos caiu mais de 11% em agosto, mês em que a medida anunciada pelo governo Lula entrou em vigor. Apesar disso, as concessionárias bauruenses têm motivos para comemorar.

Isso porque as vendas efetuadas mês passado superaram as de julho nas principais agências autorizadas da cidade. Representantes de concessionárias entrevistados pelo AutoMercado&Cia são unânimes em apontar os motivos para tal desempenho comercial destoante do cenário nacional: são reflexos diretos das quedas das alíquotas do IPI e dos juros básicos da economia.

“O IPI não foi o único fator determinante, pois a redução de juros de dois pontos percentuais do mercado com a decisão do Conselho de Política Monetária (Copom) ajudou bastante. Esta somatória foi fundamental à recuperação das vendas”, enfatiza José Antonio Rossini, diretor comercial da Baurucar/Volkswagen.

Rossini revela que a agência registrou crescimento nas comercializações em torno de 15% de junho para julho e de 10% de julho para agosto. “Tivemos uma reação positiva. Por isso, não posso reclamar da redução do imposto”, considera.

Mas ele faz uma ressalva: “A diminuição das taxas do IPI foi uma gota dágua dentro de um incêndio. Se fosse só em função disso talvez o mercado não reagisse desta forma.”

Já para os próximos meses, continua o diretor, a expectativa é as vendas continuem no mesmo patamar. “Historicamente, todo segundo semestre é melhor para a indústria automobilística que o primeiro em função do 13.º salário, das promoções que as montadoras fazem e dos novos lançamentos, ações que ajudam a aquecer a comercialização do setor”, diz Rossini.

Outro que defende os mesmos raciocínios de Rossini é Fernando Vieira de Mello, gerente de vendas da Amantini/Chevrolet. Mas ele vai além. “Além do IPI e das taxas de juros, o aquecimento da economia também ajudou. Se não houvesse um sinal disso, não teríamos esse crescimento”, sustenta.

Entenda-se por “crescimento”, segundo Fernando, uma melhora nas vendas de cerca de 20% de julho para agosto. Entretanto, o gerente pondera: “Ainda está muito longe do que precisamos, pois julho não foi um grande mês. Falamos que houve uma subida analisando números bem baixos”, frisa.

Apesar disso, ele mantém perspectivas otimistas para os meses restantes de 2003. “A expectativa é de melhora acentuada. Acredito que setembro, outubro e novembro o mercado ganhará fôlego devido ao aquecimento da economia”, prevê Fernando.

Alerta

O gerente de vendas da Simão/Ford, Jorge Simão Neto, também considera que o IPI não exerceu papel tão expressivo no aumento das vendas. “Isso ajudou a aquecê-las em torno de 20%, mas não foi só ele”, afirma, taxativo.

Ele entende que a decisão da montadora em aumentar o valor dos bônus a fim de tentar acabar com os estoques dos modelos 2003 tornou-se um aspecto decisivo nesse sentido. “Ainda tenho uma quantidade considerável, mas já há diversos veículos que a Ford não possui mais em estoque”, ressalta, sem citar os modelos.

E como estes estão diminuindo, Jorge faz um alerta. “Muitos consumidores deixam para comprar na última hora pensando ter até novembro para aproveitar o IPI reduzido. Entretanto, o prazo termina em 31 de outubro”, destaca. “Acho que em no próximo mês as vendas irão estourar e faltará carro para o cliente, ou seja, o consumidor não terá muitas opções de cores e modelos e não poderá escolher muito”, adverte.

O AutoMercado&Cia tentou entrar em contato com um gerente de vendas da concessionária Meta/Fiat para ouvi-lo sobre o assunto, mas até o fechamento desta edição, na última quarta-feira à tarde, ele não retornou as ligações e os recados deixados pela reportagem.

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'Debandada'

Ao comentar a possibilidade do mercado automotivo nacional voltar a atingir índices de produtividade semelhantes aos do início do Plano Real - época em que as montadoras chegaram a produzir anualmente mais de 2 milhões de veículos - o diretor comercial da Baurucar/Volkswagen, José Antonio Rossini, prevê um cenário desanimador em curto prazo.

Para Rossini, dentro dos próximos cinco anos pode haver uma “debandada” de montadoras do País. “Se as grandes, donas de fatias significativas do mercado, já estão com dificuldades, imagine as menores que têm 2% a 3%. Por causa disso, acho que pode haver fusões, cisões ou até mesmo desistências em curto prazo”, prevê.

Segundo o diretor, o panorama econômico brasileiro atingiu aqueles patamares de produtividade de veículos porque havia outras expectativas. “Atualmente, temos 14 montadoras atuando no País e não sei se voltaremos a retomar aquele mesmo volume. Se o fizermos, será de uma maneira mais racional”, conclui ele.