09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

Araguaia: em busca de grandes bagres

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 6 min

Uma agradável surpresa para um grupo de pescadores de Bauru: pescar as famosas pirararas e piraíbas do rio Araguaia, emoção à flor da pele. A pescaria do quarteto foi tão produtiva, que o grupo ficou conhecido no hotel como “turma que pega peixe grande”.

O período era propício; rio baixo, temperatura elevada, ipês floridos e a disposição para pescar e soltar apresentaram os ingredientes ideais para os aventureiros Heitor Evaristo Fabrício Costa, promotor aposentado; Carlos Alberto Ruiz, aposentado da Cesp; Fernando Clementino, aposentado do Banespa; e Ângelo Diegoli, o “único” da turma que trabalha, sócio da Agroserv.

Habituados a pescar no pantanal, eles resolveram mudar o destino da pescaria ao acatar a sugestão do amigo e juiz aposentado Gilmar Garmes, de Pederneiras. “Ele deu as dicas, dizendo que o local era muito bom para pescar”, comenta Ruiz.

Conduzindo uma caminhonete, os pescadores seguiram para a região norte de Goiás, passaram por Goiás Velho, onde aproveitaram para provar o frango com pequi e o empadão goiano - delícias típicas - e, mais de 1.500 quilômetros depois, chegaram ao porto Luiz Alves, às margens do rio Araguaia, na Pousada do Pescador.

Eles não imaginavam o que iriam viver a partir daquela chegada. De acordo com Carlão Ruiz, um detalhe importante facilita sempre suas pescarias: “Vamos de alma limpa, de coração aberto. Pegamos os peixes, fotografamos e devolvemos para o rio”.

Clementino informa que também retiram todas as farpas dos anzóis. “É bastante esportivo e mais leal com o peixe”, explica. “A dourada, por exemplo, de cada dez que você pega, consegue pegar duas ou três. Ela pula longe, salta como o dourado para se livrar do anzol.”

Mas não foram apenas os esportivos douradas, aruanãs, bicudas, matrinxãs, caranhas e tucunarés que o grupo pescou. O forte mesmo foram os bagres gigantes, as piraíbas e pirararas da Bacia Amazônica.

Gigante do rio

Para se ter uma idéia do que é encontrar com uma piraíba, o maior de todos os bagres, até alcançar 60 quilos, a espécie é chamada de filhote. Depois é que recebe finalmente o nome de piraíba (do tupi-guarani peixe-mãe), podendo ultrapassar 300 quilos, dois metros de comprimento e 1,4 metro de circunferência.

Já a pirarara encanta pelo tamanho, mas principalmente por sua coloração, mesclada de amarelo, marrom e vermelho-sangue. Por isso, a espécie ganhou o nome de peixe-arara. Ela pode chegar a mais de 1,40 metro e ultrapassar os 50 quilos.

Mas pegar esses gigantes não é nada fácil. No dia da chegada, o grupo reuniu-se com os piloteiros Lindomar e Alonso para, “molhando as palavras”, checar como seria a pescaria. Foi nesse momento que tiveram a certeza de que teriam emoções pela frente: os equipamentos usados no pantanal, com linha mais leve, teria que ser incrementado. “Usamos tralha dos piloteiros, linhas 80 e 90, anzóis 10/0 ou 11/0 e fizemos uma excelente pescaria. Todos pegaram peixes grandes, o que é muito emocionante”, confidencia Ruiz.

Sua maior piraíba mediu 1,88m e pesou aproximadamente 90 quilos. “Usei um curimba vivo, anzol 11/0 e linha araty light 80, foram mais de 30 minutos de briga até ela parar. E o curioso é que o anzol pegou bem na beirinha da boca, não sei como não escapou”, narra feliz o pescador Carlão. Depois da fotografia com os amigos, o enorme peixe voltou saudável para o rio.

Fernando Clementino não deixou barato e capturou uma pirarara gigante. “Ela mediu 1,40m, pesando aproximandamente 55 quilos. Eu usei um piau vivo como isca e mesmo com a linha 90 deu trabalho. Inclusive para colocá-la no barco para a foto.” Pescaria de grandes peixes chegam a causar fadiga nos braços. “O peixe puxa, a gente recolhe, ele puxa novamente, você recolhe. É uma batalha. O lugar é fundo, mais de 15 metros, e é necessário usar chumbadas de 800/900 gramas”, ensina.

Outro feliz pescador de piraíba foi o Heitor Evaristo Fabrício Costa. Ele fisgou uma piraíba que mediu quase dois metros. Segundo informações de pescadores mais experientes, seria um exemplar fêmea, pois as nadadeiras traseiras são mais desenvolvidas. “O que auxilia na desova”, explica Ruiz. O “peixão”, como todos os outros gigantes, retornou ao rio após a sessão de fotos, mas o pescador ainda foi protagonista da maior de todas as piraíbas.

“O Heitor estava pescando com linha 90, de repente, sentiu a puxada, brigou e viu um enorme vulto, infelizmente ela foi mais forte e arrebentou a linha”, conta Ruiz. Tradicionalmente, o maior peixe sempre foge das pescarias. “Pode parecer fácil, pois todos pegaram peixes grandes, mas a verdade é que nunca uma equipe de TV conseguiu acompanhar a pesca da piraíba”, explica Carlão Ruiz.

Suspense

Para Fernando Clementino, o momento mais emocionante dos grandes bagres é quando o peixe flutua próximo ao barco. “É a hora da entrega. E é nessas horas que a gente perde o peixe. Você ainda não sabe se vai conseguir embarcar ou não, principalmente usando anzóis sem farpa como nós. O peixe encontra a luz e faz de tudo para se livrar, dá cada rabada que até molha a gente no barco”, narra Clementino.

Depois do sucesso da pescaria, o grupo de Bauru ficou famoso na Pousada do Pescador. “Tinha um grupo de 20 pescadores de Brasília que ofertava R$ 500,00 para, pelo menos, ver uma piraíba. Eles não conseguiram pegar nenhuma”, comenta Ruiz.

“Para nós, foi pura sorte, pois nunca havíamos praticado essa pescaria. Acho que é porque não matamos peixe! Agora, ‘cansados’, vamos descansar em Porto Esperança, no Rancho do Ângelo”, brincam Clementino e Ruiz.

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Curiosidades

Um peixe bastante curioso também foi alvo da pescaria do quarteto de Bauru. O aruanã deu muita emoção aos pescadores. “É um peixe diferente e esportivo. Para se ter uma idéia, ele cospe para conseguir seu alimento. Se tem um besouro no galho da árvore, ele olha, faz a correção ótica da água e cospe. O besouro cai e ele come”, explica animado com a “esperteza” do peixe, o pescador Ruiz.

Outra espécie comum, mas um tanto perigosa, é o candiru. Lá, é comum encontrar a espécie que, atraída pela uréia, é capaz de entrar no canal da uretra ou da vagina quando a pessoa entra nu no rio. Em geral, mede entre 4 e 8 centímetros de comprimento e tem por volta de apenas 4 milímetros de diâmetro. Por ser muito delgado, consegue entrar facilmente em qualquer cavidade de pessoas e animais. O candiru costuma atacar peixes de grande porte - entrando pelas guelras para sugar sangue - e animais feridos que procuram refúgio na água.

A espécie tem dentição afiada, gosta do sangue e do muco dos animais - chega a tirar até pedaços de carne de suas vítimas, tamanha a violência com que age. Depois de entrar no corpo, o peixe só sai com cirurgia.

“É um peixinho perigoso, pois só é retirado com cirurgia. Eu peguei uma arraia e ao virá-la saiu um candiru de sua guelra. As arraias também são perigosas, pois têm um ferrão. Ao andar nas margens, é preciso arrastar os pés para espantá-las”, explica Fernando Clementino.

A pescaria exige, apesar de não ser correto, carregar um estilingue no barco. Sabem por quê? O boto é o maior predador de iscas do rio e, para evitar seus ataques, os pescadores sugerem levar um estilingue para espantar o espertalhão. “Ele é tão safado que corta o peixe e deixa a cabeça, nem se enrosca no anzol e ainda sai pulando”, comenta Ruiz.