09 de julho de 2026
Articulistas

Vícios lacrimejantes


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Pela circunstância de as prateleiras dos supermercados, empórios, bares, lanchonetes, restaurantes e, igualmente, os refrigeradores domésticos, exibirem-se rotineiramente superlotados de recipientes com todos os tipos de bebidas alcoólicas (uísques, cervejas, vinhos, aguardentes e vários outros de igual quilate), o alcoolismo tornou-se um seríssimo drama para as famílias e a sociedade no seu todo, pois a fabulosa variedade dos sabores e a enorme quantidade dos produtos oriundos dos canaviais e parreiras impossibilitam a repressão que possa partir dos parentes e amigos que tentem opor-se a vício dos alcoólatras, porquanto, o hábito dos goles desmedidos constitui verdadeira doença. Há sogras, por exemplo, que admoestam as noras, alegando que seu filho, quando era solteiro, não bebia como passou a fazê-lo depois de casado, assim como há esposas que se queixam de que o marido bandeou para a bebida apaixonadamente de algum tempo a esta parte. “Já não sei o que fazer mais para que ele reduza as suas doses” - desabafam com os filhos e demais parentes, lastimando que o esposo transformou-se desabridamente num agressor, verdadeiro problema para toda a família e para a tranqüilidade do lar. Existem, conseqüentemente, mulheres que partem para o divórcio diante da constatação de que o seu homem vem cometendo uma série de irresponsabilidades pessoais, inclusive brigando com companheiros de trabalho, perdendo o emprego e não pagando dívidas contraídas nos botecos que freqüenta.

Segundo os órgãos policiais, hoje em dia em 50% dos homicídios o assassino ou a vítima, quando não ambos, são reconhecidamente viciados em ingestões alcoólicas. E os médicos, o que dizem? Lembram que o alcoolismo é uma doença progressiva e incurável, que exige ser detida ainda no início, naturalmente com a colaboração da família, da medicina e da sociedade. Só na Capital paulista há aproximadamente 480 mil viciados, dentre os quais jovens entre 12 e 15 anos, participantes das tradicionais festinhas domésticas, nas quais o álcool corre a rodo. Nos 25 a 30 anos o problema chega a estágio avançado, o que leva à morte muito cedo em função de seus ataques à saúde, na mesma proporção do câncer, das endemias e das doenças mentais e do coração. Vivem eles caídos nas calçadas, presos em cadeias e internados em hospitais, mas também embriagados nos lares, nas fábricas e nos escritórios, onde precisam ser assistidos pelos que estejam devidamente vocacionados para incutir-lhes medidas regeneradoras, sem as quais jamais superarão os desafios e dissabores que o vício lhes acarreta com os mais trágicos reflexos em suas vidas.

Acham-se no Congresso Nacional projetos de leis voltados para a minimização do alcoolismo e oxalá tragam as proposituras os benéficos resultados que tem em mira. É a nossa opinião.

O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.