08 de julho de 2026
Articulistas

Céu de brigadeiro


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A semana terminou com os mercados financeiros em estado de quase euforia. O risco-Brasil, indicador que representa a avaliação que os investidores fazem da capacidade de honrarmos nossos compromissos externos, chegou a menos de 650 pontos. O dólar está cotado a R$ 2,90 e apresenta uma estabilidade há muito tempo não vista por aqui. E esta cotação só não é menor porque o governo vem comprando quantidades expressivas da moeda americana e reforçando nossas reservas externas.

Os juros caíram mais um pouco, refletindo a confiança dos agentes econômicos na estabilidade futura da inflação. Uma prova deste comportamento é o fato de que os juros futuros são praticamente iguais aos dos contratos mais curtos. Na BMF, instituição onde se realizam as apostas sobre os juros futuros, os contratos para janeiro de 2005 indicam uma expectativa de 18,10% ao ano; já os contratos com vencimentos para julho do próximo ano são negociados com taxas próximas de 18% ao ano, ou seja, com uma diferença quase marginal. Isto quer dizer que os participantes deste jogo sobre o futuro acreditam em uma estabilidade da inflação e da política monetária do Banco Central.

Outro indicador sobre o atual otimismo de hoje são os preços das ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo. Estamos nos aproximando de uma situação só vivida em 2000, quando o Brasil crescia mais de 4% ao ano. Somente nesta última semana, o índice Bovespa, que mede uma cesta de ações negociadas neste mercado, subiu mais de 3,5%. Diferentemente dos indicadores do tipo risco-Brasil e dólar, os preços das ações estão influenciados pela expectativa de uma volta do crescimento econômico e dos lucros das empresas brasileiras.

Uma leitura mais cuidadosa dos mercados nos permite traçar um quadro realista da situação da economia neste quase final do primeiro ano do mandato do presidente Lula. A política econômica de traço conservador do ministro Palocci um verdadeiro neomalanismo, devolveu aos mercados financeiros a tranqüilidade de nossa solvência externa. Trouxe de volta, também, a segurança de que não haverá calote na enorme dívida interna do governo. O compromisso, hoje levado a sério, de que o governo terá superávits fiscais elevados para estabilizar a relação entre a dívida do governo e o valor de nosso PIB é o principal motivo desta tranqüilidade.

Também influenciou esta mudança de humor a percepção de que, cada dia que passa, o governo atual converge para os valores e compromissos do período Fernando Henrique Cardoso. As bravatas dos primeiros dias do governo foram esquecidas sob o peso da mudança do discurso em áreas sensíveis para os mercados. Os discursos inflamados do ministro Miro Teixeira e de outras autoridades contra as agências reguladoras foram substituídos pela confirmação deste novo arranjo institucional do governo. Da mesma forma, o confronto mortal contra a empresa americana AES foi substituído por uma aliança acionária com o BNDES, no controle de quatro empresas de energia elétrica no Brasil.

Entramos agora na batalha da retomada do crescimento, objetivo que o malanismo original nunca conseguiu atingir. Vamos ver se o ministro Palocci e seu pragmatismo conseguem encontrar um caminho mais virtuoso.

O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista, é publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES.