09 de julho de 2026
Saúde

Alzheimer afeta 1,5 milhão no Brasil

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Descoberta no início do século passado pelo médico alemão que lhe deu o nome, o mal de Alzheimer atinge atualmente cerca de 1,5 milhão de brasileiros, numa incidência de um caso para cada 20 pessoas acima de 65 anos. No intuito de promover a conscientização sobre a doença, organizações internacionais criaram, em 1994, o Dia Mundial de Alzheimer, comemorado hoje.

Tudo começa com pequenos esquecimentos de situações recentes: onde deixou as chaves, nomes de parentes próximos, um recado de alguém. Com o tempo, a pessoa começa a falar coisas sem sentido, distrai-se facilmente, recusa-se a seguir hábitos rotineiros.

Quando isso acontece, a tendência da família é dizer que é só “coisa de velho”, mas esses comportamentos podem ser sintomas da doença de Alzheimer - o tipo mais comum de demência em idosos.

Os primeiros indícios da patologia surgiram em 1907, quando o médico alemão Alois Alzheimer identificou anomalias nunca antes relatadas no cérebro de uma senhora de 55 anos durante uma necropsia. Seus neurônios estavam atrofiados e dentro deles havia um tecido fibroso.

A patologia era praticamente desconhecida da população até o final dos anos 90, quando manifestou-se no ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan.

A doença é caracterizada pela degeneração progressiva do córtex cerebral - área que coordena a concentração, memória, raciocínio e inteligência do ser humano. A pessoa perde gradualmente suas funções cognitivas e o comprometimento evolui até a perda completa de autonomia: ela não sabe mais andar, vestir-se, comer, falar, deglutir (engolir).

De acordo com a Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz), a patologia evolui em fases bem distintas. O início é considerado um dos períodos mais críticos, pois o doente tem justificativas para as alterações de comportamento e a família tende a subvalorizá-las como se fossem atitudes normais do envelhecimento.

Na maioria dos casos, só se dá a devida importância ao problema quando os distúrbios começam a comprometer o relacionamento do idoso dentro e fora de casa. Ele se diz perseguido, faz compras estranhas, troca o valor das cédulas de dinheiro, abraça estranhos na rua como se fossem conhecidos, não reconhece um parente próximo.

É comum a pessoa sair de casa e não conseguir voltar, deixar o fogo aceso, não escovar os dentes, não tomar banho, usar o bidê em vez do vaso sanitário. Como a doença afeta a memória recente, não adianta explicar ou tentar convencer o doente de que está errado.

Conforme os danos cerebrais aumentam, a pessoa começa a ter dificuldades para falar - não só porque esquece as palavras, mas porque já não consegue coordenar as estruturas do aparelho fonador. Não lê, não escreve, tem alucinações, apresenta atitudes descabidas, como calçar a meia por cima do chinelo ou deixar o talher para comer com as mãos.

Na fase terminal, o doente perde totalmente o controle sobre seu corpo. Precisa usar fraldas e ser alimentado por sonda, pois não sabe engolir e pode asfixiar-se com a própria saliva.

Apesar de ter sido descoberta há quase 100 anos, ainda não se sabe qual é a causa da doença e não existe cura para a degeneração. O tratamento oferecido é paliativo. Os medicamentos são usados para controlar os sintomas e desacelerar sua progressão, mas a evolução é inevitável.

Hipóteses

Existem várias teorias que procuram explicar a causa da doença de Alzheimer. A principal hipótese é a de que a patologia seja causada pelo envelhecimento propriamente. Isso porque quanto mais avançada a idade, maior a prevalência. Aos 65 anos, a incidência é de aproximadamente 5%, passando para 40% a partir dos 85 anos.

Outra teoria indica que filhos que nasceram de mães com mais de 40 anos têm uma tendência maior às demências. Da mesma forma, estuda-se se há um componente genético envolvido - não necessariamente hereditário.

Idosos que sofreram traumatismos cranianos graves também parecem ser mais suscetíveis à doença e há, também, a hipótese de uma origem tóxica, em pessoas expostas a substâncias químicas como o alumínio. Até hoje, nenhuma destas hipóteses foi cientificamente comprovada.

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Cuidador é quem mais sofre

De acordo com a fonoaudióloga Ester Silvestre Junqueira, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) - regional Bauru -, as pessoas que tomam conta do doente sofrem muito mais que o próprio doente. “Elas estão conscientes e assistem a todo o progresso degenerativo, enquanto o portador nem sempre percebe o que está acontecendo”, afirma.

Segundo ela, o principal objetivo da Abraz é justamente oferecer apoio e orientação aos familiares. O grupo é composto por profissionais de diversas áreas, incluindo médicos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, psicólogos e enfermeiros.

“Somos todos voluntários e oferecemos as informações técnicas: o que eles podem fazer para o doente, como oferecer a comida, o que oferecer, como dar o banho, como lidar com a agressividade ou depressão, mudar o doente de posição quando está acamado e assim por diante”, explica Junqueira.

Paralelamente, a associação promove reuniões entre os cuidadores. “É uma oportunidade para a troca de experiências.Quando alguém conta que está com determinado problema, o outro diz que já passou por aquilo, que agiu de tal maneira e assim por diante. Desta forma, o cuidador percebe que não está sozinho e isso ajuda a lidar com a angústia e o estresse”, salienta.

Ela lembra que o doente de Alzheimer precisa ser acompanhado 24 horas por dia e normalmente essa obrigação recai sobre um único membro da família, o que não é bom. A doença é progressiva, a família terá que conviver com ela por muitos anos.

“A gente orienta a pessoa a ter alguém com quem revezar, porque o cuidador precisa ter um tempo para si, para espairecer, conversar com amigos, ver coisas novas, descansar e viver um pouco sua própria vida. É muito comum os familiares sofrerem de depressão - mesmo os que são profissionais de saúde. No entanto, quando descansados, eles exercem melhor seus cuidados e vivem melhor”, completa.

• Serviço

A Abraz realiza palestras e reuniões nos 1.º e 3.º sábados do mês, na rua Ezequiel Ramos, 7-32, sala 5, a partir das 14h30. A participação é totalmente gratuita. Mais informações podem ser obtidas pelos telefones (14) 222-6556, 222-7365 ou 232-1390.