08 de julho de 2026
Articulistas

Os bancos e a saúva


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O Copom, Comitê de Política Monetária do Banco Central, em sua reunião mensal reduziu a taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic, de 22% a.a. para 20% a.a., contemplando, em parte, a expectativa do setor produtivo e dos consumidores que reclamam do custo absurdo do dinheiro. A redução da Selic, referência para os títulos da dívida pública e para o mercado de juros, não tem alcançado os pobres mortais que continuam pagando taxas abusivas nas compras à prestação.

O ministro Zé Dirceu, ao falar no Fórum das Américas, realizado em São Paulo, chamou a atenção dos bancos para fazer chegar aos consumidores a queda da taxa de juros promovida pelo Banco Central. A banca, através da sua federação (Febraban), respondeu ao poderoso ministro “trucando” em cima do governo. Só faltou entoar a música do momento, “tô nem aí...”.

A queda da inflação tornou as taxas de juro, embora reduzidas, mais elevadas. O juro real (descontada a inflação anual) aumentou de janeiro para cá e está em 8,75 % ao ano. Só é menor que os juros praticados em Israel e na Namíbia. Nos Estados Unidos, a “Selic” de lá é 1 % ao ano. No Japão e em países onde a economia está recessiva, como aqui, os juros estão próximos de zero. Por aí se vê que os juros continuam caso de polícia.

A produção industrial caiu pelo sexto mês consecutivo. Junto, despencou a taxa de emprego que de abril para cá registra 15.514 postos de trabalho a menos, só em São Paulo. O comércio vai atrás e amarga seis meses de contínuas quedas nos índices de venda. As projeções do PIB reforçam esse quadro preocupante e os otimistas falam, para o ano, em percentual próximo a um. O governo não escapa, a arrecadação federal caiu de R$ 23,4 bilhões em julho, para R$ 19,7 bilhões em agosto. O caixa do Palocci ficou mais magro, embora com a nova Selic o país vá economizar, no prazo de um ano, cerca de R$ 6 bilhões, só com os juros da dívida pública.

Uma coisa puxa a outra, já dizia o saudoso Zé do Skinão ao filosofar sobre a “teoria da elasticidade do queijo mussarela derretido em banho-maria”. Com inveja dos bancos, parte do setor produtivo caminha para o lucro fácil da exploração do crédito ao consumidor. Lojas, magazines e, mesmo, indústrias passaram o financiar o consumo de seus produtos sob a justificativa de que, assim, podem oferecê-los a seus clientes por um preço mais em conta. As atividades produtivas, que deram origem a seus negócios, hoje dividem espaço com as financeiras, que propiciam muito mais rentabilidade. Carrefour, Walt-Mart, Marisa, Bahia, etc, são exemplos de empresas que montaram bancos ou financeiras e seus atuais balanços comprovam que fizeram um ótimo negócio. As grandes lojas de eletrodomésticos não vendem mais à vista, é só a prazo. Elas hoje são meio loja e meio banco. O Brasil deixou de ser o “cassino” do “over nigth” para virar o “paraíso” da exploração financeira do consumidor.

O governo tenta enfrentar esse esquema colocando o Banco do Brasil e a Caixa Federal para financiar eletrodomésticos. Belo gesto, porém insuficiente e tem cheiro de Pilatos no credo. Taxa de 2,53 % mensal não é barata, beira os 40 % a.a. e só terão acesso a esses financiamentos os correntistas do BB e da CEF. A esmagadora maioria dos que carregam o piano neste país ficará de fora. Hoje, os bancos estão para o Brasil 2003 como as saúvas estavam para o Brasil do início do século passado. Será que o Lula e o Zé Dirceu vão dar conta dessa “saúva” atual?

O autor, Tidei de Lima é engenheiro-civil, ex-deputado federal, ex-secretário da Agricultura e ex-prefeito de Bauru.