“Mesmo sabendo que esta coluna é dedicada a ‘fatos verdadeiros’ ocorridos com pescadores, mas devido ao enorme sucesso das publicações, resolvi mandar esta história ‘verdadeira’ mesmo não sendo de pescarias propriamente dito, pois trata-se de uma caçada.
Este escriba que vos escreve mais um amigo que não será identificado para poupá-lo do vexame que passou a meu lado nesta inesquecível caçada de borboletas. Este meu amigo tinha o péssimo hábito de colecionar esses belos insetos voadores e qualquer uma que pudesse apanhar ia para sua vasta coleção. Eram mais de 30 cadernos de 100 folhas com três ou mais borboletas separando as páginas, certa vez me disse: ‘São mais de 3 mil borboletas coloridas todas sequinhas’, apontando com orgulho uma pilha de cadernos no canto do quarto.
Por sermos funcionários da mesma empresa, aproveitamos um desses feriados de quinta-feira para acamparmos. Fomos numa fazenda dos tios do colecionador de borboletas, que fica num belo pé de serra entre Dois Córregos e Mineiros. Em lá chegando, fomos muito bem recebidos pelos tios do ‘borboleteiro’ que logo foram perguntando da família e abraçando o sobrinho que há tempo não viam. Após afagos e comprimentos, passou-se a euforia da chegada e o assunto inevitável veio à tona, as histórias do unhudo. O simpático e gentil casal, ali morador há mais de 50 anos, confirmou para o sobrinho a horripilante lenda do tal protetor das florestas daquela região e alertou-o para satisfazer-se com as borboletas dos gramados próximos da casa.
Na tarde de quinta-feira, por estarmos um pouco cansados da viagem e ainda preparando nossas barracas a uns 100 metros da casa do casal, o anfitrião que insistia para que dormíssemos em dos quartos de sua casa. Agradecemos muito, mas optamos pelas barracas, pois teríamos mais liberdade com as latinhas, este meu amigo, terror dos insetos voadores ainda teve tempo e ânimo para correr pelos gramados com um enorme coador nas mãos antes do escurecer.
Já havia capturado mais de 20 espécies diferentes, empolgado, jurou que no dia seguinte adentraria às matas pois era ali que ficavam as raridades que ele almejava. O sol daquela sexta-feira, que seria para nós tragicamente inesquecível, nos despertou. Depois de uma ótima noite de sono naquele recanto de sertão onde o silêncio e a fresca brisa noturna nos acalentara por quase dez horas de sono reparador.
Tomamos café e, enquanto eu me dedicava a ouvir causos com aquele velho e sábio matuto que conhecia todos os desvãos e desfiladeiros entre aqueles morros, meu amigo, sempre afoito abriu uma sacola de lona e começou a tirar dali uma rede. Sem que ninguém perguntasse nada, foi adiantando que media dois metros de largura por seis de comprimento e que armaria numa picada em meio ao mato e até a tarde teria no mínimo umas 100 borboletas novas para sua macabra coleção.
O tio do borboleteiro ainda tentou impedir seu ato criminoso, dizendo pra ele tomar cuidado que o dono da mata e das borboletas podia não gostar daquela rede em meio ao mato. Meu colega, meio sem jeito, disse ao tio: ‘ô loco, tio o senhor não vai me proibir de caçar umas borboletas aqui o no seu sítio?’ Seu tio respondeu que só as terras eram suas, mas as matas e as borboletas tinham outros donos. Meu amigo borboleteiro não entendeu a metáfora, despediu-se rapidamente e enfiou-se mata a dentro. Passaram-se umas quatro horas e nosso colega não voltava.
Já despertando a atenção do dono da casa que arriscou um vaticínio (boa coisa não é), almoçamos eu e o casal de idosos, que ansiosos olhavam para um velho despertador sobre uma antiga cristaleira. Mal terminamos a refeição, seu Lupércio empurrou o prato e, afastando a cadeira rapidamente, me convidou para irmos atrás do caçador de borboletas, pois tinha certeza que algo anormal teria acontecido.
Saímos a passos largos em direção ao mato. Ouvi de seu Lupércio que esse não é o primeiro nem será o último caçador que dá com os burros n’água. Dez minutos de caminhada e já adentrávamos ao mato. Embrenhamos uns 30 metros. Resolvi gritar pelo nome do procurado. Antes do eco ressoar nas grotas ouvimos sua resposta em tom desesperador: ‘tô aqui! Socorro! Pel’amor de Deus!’. Corremos para a direção de onde veio o grito e encontramos o borboleteiro emaranhado na rede já imprestável para qualquer tipo de caçada ou pescaria. Procuramos acalmá-lo e aos poucos fomos desvencilhando-o da rede que parecia estraçalhada por alguém que tinha facas nas mãos.”
Lázaro Carneiro não é pescador, mas é contador de história