Para viver tranqüilamente naquela localidade você tinha que se adaptar a certos caprichos. Ou você relaxava, entrava no clima, fingindo tudo ser normal ou acabava perdendo o sono, a calma, os cabelos e até o bom senso. Percebi logo de cara que ali vigorava a lei do “se não houve prejuízo, não ocorreu dolo”. Deslize cometido, deslize descoberto e deslize recomposto, tudo normal. Aprendi logo que, uma vez tudo no lugar, não deve haver contestação. É o que coloco em prática no meu dia-a-dia.
Tempos atrás fui cuidar daquela cooperativa. Estava eu lá no meu posto observando aquele mundão de cereais no celeiro. Tudo muito parado. Que faço eu. Tiro uma quantidade e dou uma finalidade para tudo aquilo, deixando lá um vazio. Passa-se o tempo e como sou eu mesmo que faço os acertos, as saídas e entradas, ninguém nota nada. Mas, como nada é perfeito, um desqualificado, daqueles que não têm o que fazer, além de bisbilhotar onde não é chamado dá de escarafunchar o estoque e descobre aquele rombo. O infeliz coloca a boca no trombone, quer desgraçar minha vida, porém, esperto que sou, dou rapidamente meus pulos e em questão de dias tapo o buraco, recolocando todo o cereal lá no quentinho do celeiro. Tentam espernear, mas reclamar do que, se o cereal já está todo devolvido, grão por grão. Ficam é com cara de bobos. Alegam lá umas coisas, como o celeiro ter ficado três anos sem os grãos (esse foi o tempo do sumiço até o do reaparecimento), mas isso não colou, pois o que vale mesmo é hoje. E hoje, tudo está sanado, restituído, com nada tendo a ser contestado. Probo que sou, continuo a administrar a cooperativa, sob a anuência dos sócios majoritários, que até mudaram na última hora a votação onde era decidido meu futuro.
Não inventei nada, somente dei continuidade a um procedimento dos mais elementares por lá, desses que não alteram em nada as leis da física, muito menos o andar da carruagem. Apesar que, hoje modernizaram e ampliaram os procedimentos. É um tal de comprar, pagar antecipado (com aditivo) e só entregar a mercadoria quando os mesmos de sempre (ainda bem que são poucos) notam pela falta da entrada no estoque. Agora, quando o assunto é fazer minhas comprinhas pessoais no mercadinho do seu Zé, procedo diferente, pago e quero a mercadoria na hora, no ato. Em alguns casos, nem pago, mas assim mesmo quero levar a mercadoria. Aquela lei que lhes falei lá atrás, só vale lá na cooperativa.
Henrique Perazzi de Aquino - RG 9.710.205-2