A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) já começou a colher novas mostras de sangue de 300 crianças, moradoras do Jardim Tangarás, que foram contaminadas pelo chumbo emitido no bairro pela empresa de baterias Acumulares Ajax.
A conclusão dos exames vai indicar se a contaminação pelo metal diminuiu, após a ação de remediação realizada pelo Departamento de Saúde Coletiva (DSC) da SMS.
Depois que a empresa foi interditada em janeiro do ano passado em função da degradação do meio ambiente, os órgãos de saúde providenciaram a cimentação do interior de três residências do bairro, a raspagem de cinco centímetros de solo superficial de 80 ruas do Jardim Tangarás, além da raspagem do quintal e da calçada de 270 residências.
Dessa operação foram retirados 232 caminhões de terra (o equivalente a 1.392 metros cúbicos), que estão armazenados no interior de um galpão do setor de metalurgia da empresa, que permanece interditado. O material está coberto e recolhido num local impermeabilizado, preparado conforme recomendação da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).
“Fizemos a ação de remediação para que a população do bairro possa viver mais tranqüilamente. Essas amostras vão indicar quão efetivos foram as ações de raspagem”, explica a Diretora do DSC, Maria Helena Abreu.
Coleta
De acordo com ela, das 300 crianças que apresentaram mais de dez microgramas de chumbo por decilitro de sangue no ano passado, o que é considerado uma alteração, 72 já se submeteram ao exame. A coleta, que começou há duas semanas, deve ser concluída em meados de novembro.
Todo o sangue colhido será encaminhado ao Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, responsável pela avaliação dos exames anteriores. A conclusão final deve ser divulgada somente no início do próximo ano, especula Maria Helena Abreu.
“O resultado vai saindo paulatinamente e será estudado pelo grupo técnico que conduziu as ações de remediação, pois é um assunto complexo e inédito”, salienta.
Segundo ela, independentemente do resultado, as crianças serão acompanhadas por pelo menos dez anos, já que a concentração de chumbo pode permanecer no organismo por cerca de 25 anos.
“O índice de chumbo apontado no exame de sangue não representa aquilo que está depositado no osso (a concentração é maior em ossos e dentes). Numa fratura, por exemplo, o índice pode aumentar e a criança pode apresentar problemas agudos”, expõe.
Contaminação
A contaminação por chumbo pode provocar o saturnismo, uma doença que causa alterações no sistema nervoso e digestivo, além de anemia.
Para identificar o problema, as crianças estão sendo atendidas no Ambulatório Municipal de Especialidades, que funciona junto com a Unidade de Saúde Mental (nas imediações da rua Monsenhor Claro), ou em outros centros.
“A cada 15 dias, um neuropediatra avalia o estado de saúde delas. Além do ambulatório, temos outras duas grandes áreas de atendimento. O Centro de Psicologia Aplicada (CPA) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (Centrinho)”, informa Abreu.
Este último, oferece serviços curativos e preventivos de odontologia, além acompanhamento de fonoaudiologia e otorrinolaringologia (nariz e garganta).
Mesmo assim, para Sônia Regina da Silva, mãe de duas meninas de 2 e 5 anos que foram contaminadas, as iniciativas não bastam.
“Precisariam colocar um pronto-atendimento no bairro, porque temos dificuldade em levar as crianças. Dependemos de ônibus, que passam de hora em hora, ou de peruas”, desabafa.
Bruna da Silva Pereira, a filha de 5 anos, apresentou 21,8 microgramas de chumbo por decilitro de sangue no primeiro exame. No segundo, o índice caiu para 18, o mesmo nível da irmã mais nova.
“Ela começou a fazer o tratamento, mas por enquanto só passou pela psicóloga. Continuo me sentindo abandonada pela saúde pública e preocupada”, conclui.
Sônia desconhecia a nova etapa de coleta de sangue. Porém, crianças que brincavam pelo bairro confirmaram que já passaram por exames anteriores e que sabiam do novo teste.