Um ferimento aparentemente inofensivo na perna de uma criança levou a direção da Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria Chaparro Costa, no Parque Santa Edwirges, a um caso de maus-tratos. Ao averiguar o machucado, as educadoras perceberam hematomas nas costas de um aluno de 9 anos, que teria sido surrado pela mãe.
O caso foi informado aos policiais da Ronda Escolar da Base Comunitária de Segurança Noroeste, que acionaram anteontem o Centro Regional de Registro e Atenção aos Maus-Tratos à Infância (Crami).
“As policiais femininas levaram 50 minutos para conquistar a confiança do garoto, que só depois de muita conversa contou que tinha apanhado com um cabo de vassoura por ter levado para casa o rádio de pilha de um amigo”, conta o cabo da Polícia Militar Marcos de Souza Gaia, que também prestou o atendimento.
Segundo ele, a mãe confirmou a agressão aos policiais, para quem alegou ter tomado a iniciativa porque menor estaria pegando objetos alheios sem autorização.
“O corretivo pode ser aplicado, mas não com essa violência, porque a criança dessa idade não tem idéia do valor dos objetos. A condição social precária pode ter provocado a situação”, opina o policial. Ele contou que a mulher é viúva e mora com os quatro filhos.
Porém, a tia da vítima nega qualquer tipo de dificuldade econômica. Ela também mora com o sobrinho, que tem um irmão e outras duas irmãs – uma delas mais velha.
“Quando ela (a mãe do menor) fica sem cigarro, fica meio louca, mas só bate quando eles aprontam. A relação familiar em casa é normal”, diz a tia. Os vizinhos delas confirmam a aparente tranqüilidade, conquistada nos últimos dois anos, período em que mãe do garoto teria se convertido a uma religião.
• Soluços
Mas o relato da irmã mais velha do garoto agredido contraria a impressão da vizinhança. Entre soluços, ela garantiu ter ficado com pena do irmão que apanhou até que o cabo da vassoura arrebentasse. Disse que gosta da mãe, mas que ela bate forte quando fica nervosa, especialmente quando está sem cigarro.
Anteontem, a menina de 10 anos chegou a levar a irmazinha de 2 meses para a escola para evitar que num acesso de fúria, o bebê também fosse agredido.
A informação foi confirmada pela diretora da escola, Rosângela Redondo Ribeiro que, recentemente, acompanhou outros três casos dessa natureza. “Estamos pegando a malícia para isso. As crianças escondem essas coisas, que são decorrentes de uma condição social precária e da desestrutura familiar”, comenta a diretora.
A atenção dispensada pelas educadoras corresponde a 60% dos registros de maus-tratos da DDM, que recebe uma média de 15 casos dessa natureza por mês. Já no Crami, aproximadamente 20 denúncias chegam por semana.
“O profissional que trabalha com crianças tem a obrigação de denunciar”, ressalta a delegada titular da DDM, Rejani Tiritan. Ontem, ela instaurou inquérito para apurar o caso e requereu o exame de corpo de delito do menor, que também está sendo acompanhado pelo Conselho Tutelar.
A conselheira Ana Paula Machado convocou a mãe para comparecer no órgão de proteção ao menor na segunda-feira pela manhã e a entregou um termo de advertência. Até lá, a criança vai permanecer com a ex-mulher do avô paterno, que fica com ela todos os finais de semana - sempre com anuência da mãe.
Se ficar confirmado que ela é responsável por provocar lesões de natureza grave contra o menino poderá ser condenada por até quatro anos de reclusão. Caso os ferimentos sejam leves, poderá cumprir até um ano de detenção ou pagamento de multa. O nome da criança e de seus familiares foram preservados para evitar novos constrangimentos.