08 de julho de 2026
Regional

Sem-terra fazem protesto em Gália

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 4 min

Gália – Revoltados com sua condição de sobrevivência, cerca de 25 famílias de sem-terra, acampadas às margens da fazenda Santa Júlia, em Gália (70 quilômetros a Oeste de Bauru), realizaram um protesto ontem à tarde.

Como forma de suprir as necessidades mais urgentes, o grupo se apropriou de um boi que estava dentro da área da fazenda e abateu o animal. Segundo o líder do movimento, Antônio Brandão, 38 anos, mais do que um ato de protesto, o abate representa a situação limite de subsistência das famílias, que estariam sofrendo há uma semana pela falta de alimentos.

“Nós estamos fazendo essa reivindicação pedindo que alguém veja que nós existimos. Porque a gente está abandonado e passando fome”, afirma.

No acampamento, as marcas de miséria estão por toda a parte, das barracas de lona improvisadas às mínimas condições de saneamento e infra-estrutura.

Atualmente, para obter água, os sem-terra se deslocam cerca de um quilômetro até a fazenda vizinha e para se alimentar dependem exclusivamente de doações.

As crianças, segundo as mulheres do acampamento, são as maiores vítimas do problema e muitas já apresentariam um quadro de desnutrição. Esse seria o caso dos três filhos da sem-terra Nilza Terezinha Fernandes Wagner, 19 anos. “Meus três filhos estão doentes por falta de comida”, afirma.

As mulheres também reclamam da dificuldade em retirar remédios no posto de saúde e Assistência Social do município. “Eles não querem nos dar porque não temos cadastro. Para fazer o cadastro, eles dizem que tem que ter residência fixa”, explica Juliana de Fátima Monteiro, 20 anos. Por conta disso, na próxima segunda-feira, as mães estão programando uma marcha de reivindicação até a porta da prefeitura.

Mudança

As famílias de sem-terra totalizam cerca de 90 pessoas e estão na região de Gália há um ano e seis meses. Na maior parte desse período, estiveram acampados às margens do quilômetro 170 da rodovia SP-331, que liga Gália a Lupércia.

Há dois meses, decidiram mudar-se para a estrada vicinal que dá acesso à fazenda Santa Júlia. Segundo Brandão, a medida foi tomada depois que o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) solicitou aos acampados que saíssem da beira da pista para evitar possíveis acidentes. “Nós fizemos uma assembléia entre o grupo e decidimos vir para cá”, explica.

Entretanto, no novo local, segundo os sem-terra, as dificuldades têm se acentuado. “Depois que chegamos aqui não temos mais água, alimento, não temos mais nada”, afirma Quitéria Maria Cardoso Decati.

Na opinião do coordenador Antônio Brandão, além da demora no processo de reforma agrária, o governo federal estaria pecando em relação à assistência aos acampados. Desde o início do ano, segundo ele, as famílias teriam recebido apenas duas cestas básicas. “A gente está pedindo a aceleração do processo porque o povo está passando fome. Se tivéssemos nossa terra, não estaríamos nessa situação porque a gente teria onde plantar.”

O líder afirma que, nos próximos cinco dias, o grupo deve se alimentar do animal retirado da fazenda Santa Júlia, abatido ontem à tarde. A fazenda pertence a um morador de São Paulo e está em processo de desapropriação pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O proprietário não foi localizado pela reportagem para comentar o assunto.

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Espera

Os acampados de Gália pertencem ao Movimento dos Sem Terra (MST) e nos últimos seis anos já estiveram acomodados em várias cidades da região, entre elas Bauru, Balbinos, Presidente Alves e Iaras. Antes de chegarem em Gália, viveram na fazenda Olho D’Água, no município de Itapuí, de onde foram retirados no final de 2001, por força de um mandado de reintegração de posse.

Segundo o procurador de Marília, Jefferson Aparecido Dias, que acompanha a situação das famílias de Gália, os sem-terra estão aguardando o processo de desapropriação de terras da fazenda Santa Júlia, que teria sido iniciado pelo Incra. “A intenção do Incra é este ano ou no ano que vem promover a desapropriação dentro daquela área”, afirma. “Se não acontecer é por falta de dinheiro.”

O procurador afirma que o órgão teria se comprometido com as famílias a assentá-las no local.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa do Incra, mas não recebeu um retorno sobre o assunto até o fechamento desta edição.

Entretanto, a assessoria de imprensa do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) confirmou que as famílias estão próximas de serem assentadas.